• Jill Muricy

Mente sã, corpo SÃO


Hélio Alves e sua ALEGRIA CONTAGIANTE

Fazer da dificuldade uma inspiração é o primeiro passo para vencer na vida. A firmeza diante das adversidades com as quais nos deparamos deve ser uma atitude constante em nossa existência. Existem pessoas com admirável facilidade de se reeguer de tragédias e fracassos e de se manter inabaláveis frente a desafios. Pessoas com inteligência emocional tão potente que não se fragilizam com quase nada. Todo ser humano tem, dentro de si, uma força peculiar. Por vezes, uma força grande o bastante para torná-lo capaz de extrair o sucesso do fracasso e a felicidade da dor, bem como uma alegria inexplicável das lágrimas que insistem em cair diante de momentos difíceis. Mas, ninguém nasce sabendo que é forte. Até que a vida nos confronta com situações que nos obrigam a ser. É o caso de Hélio Alves, que viu o seu mundo cair após ser acometido por uma paralisia. Ele ficou tetraplégico e, até hoje, a causa de tudo isso é desconhecida. Hélio tinha 10 anos quando tudo aconteceu. Membro de uma família, de 16 irmãos, que vivia em uma comunidade quilombola no povoado de São Tomé, em Campo Formoso, a 600km de Salvador, na Bahia, ele e seus irmãos costumavam buscar água em um poço perto de casa para ajudar sua mãe nos afazeres domésticos. O fatídico dia aconteceu durante um fim de outono. Era uma manhã de domingo. Mais precisamente, 05 de junho de 1990. Depois dessa data, a vida de Hélio Alves não seria mais a mesma! Seria ainda mais desafiadora! Exigiria ainda mais garra e capacidade de resiliência! Alternando o peso entre os braços e os ombros, Hélio carregava, tranquilamente, o balde de água na cabeça. Durante o percurso, ele corria e brinacava com os irmãos. De repente, Hélio percebeu algo estranho em seu corpo. Tentou fazer um movimento, mas começou a sentir fortes dores e formigamento. Continuou andando. Quando chegou em casa, deitou-se para tentar suportar as dores que só aumentavam e insistiam em não ir embora. Sua mãe resolveu medicá-lo com seus remédios caseiros, sem, no entanto, obter resultados positivos. Hélio era um garoto cheio de vida, alegre, feliz, brincalhão. Corria, subia nas árvores, jogava bola, tudo que uma criança de sua idade fazia. Seus pais, entretanto, resolveram não pensar nisso naquele momento e começaram a agir. Na manhã seguinte ao ocorrido, levaram-no para um hospital na cidade de Campo Formoso, a cerca de 86km de onde moravam, numa viagem em estrada de terra batida. Longa e desconfortável! Chegando à cidade, não havia médico que atendesse a especialidade desejada. Mesmo assim, os profissionais que estiveram à disposição receitaram alguns medicamentos. Em seguida, a família retornou para casa com um diagnóstico desolador: o garoto, outrora forte e saudável, não andaria mais. Inicialmente, Hélio respondeu de uma maneira já previsível. Sua autoestima desabou. Ele passou a ficar o tempo todo enclausurado em casa, deitado. Não saia para lugar nenhum. Revoltou-se com o destino que a vida lhe reservara e deixou até mesmo de ir à escola. As pessoas que iam visitá-lo, naturalmente, o tratavam como coitadinho. Não viam que ele poderia dar a volta por cima. Não enxergavam seu potencial, mas sua deficiência. Mas ele surpreendera a todos. Aquela criança reverteria aquele quadro tenebroso.


Hélio na procissão da igreja católica

Hélio começou as sessões de fisioterapia, mas sem sucesso. Como ficava sempre em casa, um amigo pessoal o incentivou a ler a bíblia. Essa seria uma forma de praticar a leitura, já que havia parado de estudar. Doze anos depois, com 22 anos, Hélio voltou para escola. Ao chegar à sala de aula, a diretora da escola e os novos colegas o receberam com aplausos, pois tinham conseguido tirá-lo de casa. Menino inteligente, ele recomeçou a partir da 5ª série. Depois desse pontapé inicial, ele deslanchou. Começou a fazer parte do grupo de jovens da igreja católica. Estava dando passos largos na vida. Quando terminou o ensino fundamental, foi para a cidade de Campo Formoso concluir o ensino médio. Dividia a casa com outros 4 colegas estudantes. Como Hélio era cadeirante, os companheiros o ajudavam no que fosse preciso. A família e os amigos estavam felizes com o entusiasmo de Hélio. O jovem Hélio terminou o ensino médio, prestou o vestibular para ciências contábeis e foi aprovado na Universidade Estadual da Bahia (UNEB). Mas não ingressou no curso. Posteriormente, na mesma instituição, cursou Administração Pública. E, na Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF), fez pós graduação em Gestão Pública. Passou em 3 concursos públicos. Atualmente, trabalha na Secretaria de Desenvolvimento Agrário, Econômico e Turismo, em Campo Formoso, Norte baiano. Hoje, Hélio é um homem bem-sucedido. Como um renomado palestrante motivacional, ele viaja o Brasil inteiro. Tornou-se também cantor da Igreja Católica. Foi ele quem fundou a primeira Associação Quilombola de São Tomé, sua terra Natal. Além de ser inventor de uma belíssima inovação tecnológica: um triciclo de 2 motores, único no mundo, capaz de andar até 80km por hora.


Hélio vai trabalhar todos os dias de triciclo. Mesmo morando com uma irmã, Hélio faz tudo sozinho. Toma banho, veste a roupa e até cozinha. Ele encontrou um sentido na vida mesmo com sua deficiência. Ano passado, foi candidato a vereador, mas não se elegeu.

Triciclo criado por Hélio

Fã de Nelson Mandela, ele é sempre admirado por onde passa. Seu sorriso reflete a felicidade de uma vida de realizações. Hélio superou as intempéries de sua história e deu a volta por cima.

Após palestra, Hélio recebeu o jornalista Jefferson Beltrão

Hélio também recebeu o nutricionista Daniel Cady, marido da cantora Ivete Sangalo

Solteiro e, hoje, com 37 anos, Hélio Alves pensa em se casar a partir do ano que vem. Sua deficiência não alterou em nada sua vida sexual. Pretende lançar a própria biografia em breve. Hélio é uma prova de que é possível ser feliz depois do caos. O corpo é tetraplégico, mas a cabeça não tem sequelas.




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