• Jill Muricy

A face artística do Complexo do Alemão

Mariluce e sua ARTE inconfundível

A vida é uma arte, e a arte gera e dá sentido à vida. Porque tem o potencial de mover estruturas e reacender esperanças. E pessoas esperançosas conseguem ter boas expectativas de futuro, mesmo em tempos difíceis.


Suas ações têm o poder de impactar tudo ao seu redor. E fazer delas um meio para mudar a história de um povo é uma das atitudes mais nobres que podemos adotar. Todo ser humano tem uma missão a ser cumprida neste mundo. Nenhuma pessoa é destinada ao fracasso. O destino que te espera nada mais é que a consequência de suas próprias escolhas. Não é porque você é pobre, mora em uma favela, não tem nível superior e é esquecido pelo sistema, que você não pode ser uma pessoa incrível. Com bela criatividade. As favelas, por exemplo, constituem campo fértil para a geração de artistas com potencial de serem admirados por onde passam e terem o enorme privilégio de ver a própria arte ganhar o mundo. Uma adolescente deu à luz uma menina chamada Mariluce Mariá de Souza, atualmente com 35 anos. Sua mãe a deixou aos cuidados da avó. Uma senhora simples e batalhadora. Morava no Complexo do Alemão no Rio de Janeiro, e trabalhava fazendo faxina para sustentar a casa.


Mariluce, Artista Plástica

Quando completou 6 anos, Mariluce passou a acompanhar sua avó nas faxinas e também ajudava no serviço.

Certa vez, ela pediu a uma patroa de sua avó que a matriculasse em uma escola, por causa da sua extrema vontade de estudar. Como a senhora gostava da neta de sua funcionária, deu-lhe a oportunidade de ingressar, pela primeira vez, em uma escola com 9 anos, e era uma instituição privada. Aos 15 anos, Mariluce foi morar com o namorado. Teve seu primeiro filho. Hoje, ele está com 18 anos. Depois engravidou novamente, mas, dessa vez, de gêmeas. No dia do nascimento, uma menina morreu uma hora após o parto e a outra morreu três meses depois. Mariluce entrou em choque. Perdeu a memória. Era uma dor incontrolável que lhe invadia a alma. Diante do sofrimento que estava passando, a vida perdeu completamente a cor. Mas, como neste mundo nada dura para sempre, um dia aquela situação dolorosa chegou ao fim. Mariluce estava disposta a viver dias felizes depois das perdas.

Tempos depois, estava bem consigo mesma. Havia recuperado a memória, a autoestima, tudo estava aparentemente bem. No entanto, o cenário ia mudar. Mariluce engravidou de trigêmeos. Foi uma alegria saber da gravidez. Por vezes, chorou, tamanha era a emoção ao vivenciar a geração de três filhos de uma só vez. A vida, porém, não é tão simples assim. Mariluce descobriu que as crianças estavam sendo geradas nas trompas, e a gestação foi interrompida. Mais uma vez, a dor de perder os filhos invadiu o seu coração, tão fragilizado. Na vida, não entendemos o porquê do sofrimento. Por que as pessoas boas sofrem tanto. Não é fácil para ninguém perder um filho sequer. Imagina para uma mãe perder 5 filhos em tão pouco tempo. Era uma dor inexplicável. Mas, a felicidade existe, e aquele sofrimento que aconteceu serviu para fortalecer o nobre coração daquela grande mulher. Sua missão estava apenas começando, com as crianças do seu bairro.

Crianças do projeto Favela Art


Em 2014, Mariluce criou o projeto Favela Art, oficina de pintura em tela, com crianças e adolescentes do Complexo do Alemão. Elas desenham a favela em quadros e em camisas para serem vendidos aos turistas que visitam a comunidade. Sua arte está em mais de 62 países, comprada pelos gringos.

Muro colorido pelo Favela Art

Mesmo sem ter cursado nível superior e com todas as dificuldades, Mariluce é artista plástica autodidata. Com mais de 180 alunos no projeto, atende crianças muito simples, que, às vezes, nem estão matriculadas na escola, porque não têm Certidão de Nascimento. Mariluce se une aos pais e ajuda a providenciar toda documentação para inseri-las à sociedade. Não é fácil administrar o Favela Art por inúmeras razões. Principalmente, porque não tem ajuda financeira de ninguém. Ela comprou com o próprio dinheiro todo o material de pintura. Da renda adquirida com a venda da arte, cinquenta por cento é das crianças e o restante para compra de material.

Mariluce e as crianças, na oficina de pintura


Porém, há um ano, a situação do projeto ficou complicada, porque o teleférico do Alemão está sem funcionar. Logo, os turistas não visitam mais a localidade e não tem como vender a arte. A estação do transporte era o local onde as crianças se reuniam para pintar, mas a prefeitura fechou o estabelecimento com todos os materiais de pintura dentro. Mariluce e a criançada do projeto se unem para as oficinas na calçada da estação. Sob sol e chuva. Com disposição inabalável.


Os alunos são fiéis às atividades, estão presentes durante três dias na semana e com boas notas escolares. Fazer arte é um lazer para a garotada.

A arte de desenhar



Pintura assinada pelo Favela Art


Mariluce luta para que as pessoas tenham oportunidades que ela mesma não teve. Dá a própria vida pelas crianças. E sonha com o fim da violência no Alemão, onde o maior medo é ficar dentro de casa na hora do tiroteio e ser atingida por bala perdida. Já teve doenças emocionais provocadas pela barbárie. Viu pessoas conhecidas morrerem assassinadas. Apesar de a vida na favela impor um estado de tensão constante, a experiência da artista plástica mostra que não é só isso. Deseja que a favela seja respeitada, com o direito constitucional sendo aplicado para todos. E que os jovens sempre estejam no caminho do bem, longe da marginalidade.

Mariluce é uma mulher guerreira, que não tem medo de lutar pelos próprios direitos. Dá a cara a tapa, quando é preciso vai na mídia cobrar dos responsáveis melhorias para o seu povo. Esta mulher firme não desiste dos próprios objetivos por causa das circunstâncias, vive em um cenário conflagrado e mesmo assim continua lutando, porque tem esperança que as coisas melhorem. As crianças do Favela Art são os filhos que ela não gerou, mas os ama como uma mãe. Assim a vida vai caminhando. Mariluce e a garotada vão transformando a dor em ARTE.

Destaque
Tags