• Jill Muricy

A Casa que Mais AMEI

Fui BUSCAR-ME no passado, pois sem MIM eu não poderia TER FUTURO

Uma casa no Sertão/Foto: autor desconhecido

É muito DELICADO voltar onde fomos profundamente felizes e machucados ao mesmo TEMPO. Às duas coisas aconteceram comigo no mesmo cenário: AMEI e fui ferida.


Por muitos anos, relutei falar sobre isso, mas é preciso eu voltar naquele lugar, pois deixei pedaços de mim enterrados pelo CAMINHO que sempre andava.


Minha IDENTIDADE ficou presa no passado distante, e, para eu VOAR e SER uma mulher INTEIRAMENTE LIVRE dentro de mim, achei PRUDENTE voltar à casa da saudade para BUSCAR-ME.


Quando eu estava com quatro anos, meus pais resolveram deixar a terra natal da minha mãe, para morarmos de favor em uma propriedade pertencente a mãe do meu pai.

Um lugar SOSSEGADO, que nos aguardava com INÚMERAS surpresas.


Eu era bem criança, mas lembro DETALHADAMENTE de cada fato. A FELICIDADE não nos faltaria em hipótese alguma, porém a dor daria o veredicto final sobre a casa que jamais vou esquecer.


Era início dos anos 90, a melhor década que já existiu na história da humanidade, minha mãe uma LINDA adolescente estava grávida da minha irmã caçula, o terceiro fruto do casal.


O DIA estava ESPLÊNDIDO, numa MANHÃ CALMA de fim do inverno. Porém o SOL havia dado sinais que BRILHARIA naquele DIA para CELEBRAR nossa chegada na terra de areia branca. Nós não tínhamos muita coisa para levar na viagem, nossa mudança se resumiu em duas tiracolos.


Descemos do ônibus na BR e fomos andando pelo caminho até o nosso novo lar. Ainda estava bem cedo, o dia havia acabado de raiar. Ao passarmos pelo arame e adentrarmos a roça da minha avó, na minha cabeça parecia que eu conhecia tudo ali, mas na VERDADE estava lá pela primeira vez. Tudo se mantinha humilde, uma luxuosa SIMPLICIDADE decorava nossa nova casa, e a areia alvinha inundava meus pés.


Ao chegarmos na residência, todas as portas estavam trancadas, as calçadas rodeadas de “boa noite”, uma planta comum na região. Meu NOBRE pai estava RADIANTE de FELICIDADE, pois nascera e se criara ali. Eu não sabia porque estávamos lá...


A nossa única vizinha veio nos receber. Embora fosse mulher do meu tio, não possuía as chaves para abrir as portas. Meu pai arrebentou a porta da cozinha e entramos na sala pelos fundos.


Na SIMPLES casa havia móveis, inclusive a tradicional cristaleira da vovó. Os quatro quartos do lar eram equipados com suas SINGELAS mobílias. A noite seria iluminada com candeeiro. Muitas árvores enfeitavam o terreiro: pé de Umbuzeiro, pé de Tamburi, pés de mamona e outras árvores que não sei o nome, além do nosso AMADO Umbuzeirinho (eu e meus irmãos amávamos brincar em baixo dele).


A partir do momento que chegamos, aquele se tornou nosso CALOROSO ACONCHEGO. Dentro do meu CORAÇÃO TRANSBORDAVA AMOR...


No dia seguinte, acordei com um coral de pássaros cantando ao redor de casa e o cheiro de café feito no fogão à lenha, que incendiava tudo com seu aroma. Eu já havia acostumado com a nova rotina. Nessa época nossa VIDA estava tranquila, tínhamos o que comer e a terra ainda nos ajudava produzindo seus frutos.


Em dezembro do mesmo ano, minha irmã nasceu. No ano seguinte comecei a estudar. Não tinha amiguinhos na escola, porque meus colegas de classe eram todos adultos.


O TEMPO foi passando e meu AMOR por aquele lugar só aumentava. Gostava de quando minha mãe ia lavar roupas na barragem, momento em que eu carregava água num baldinho para ajudá-la encher a bacia. Outras vezes ajudando-a carregar lenha.


Quando minha irmã estava com dois aninhos, houve um desentendimento com um irmão do meu pai, que era nosso vizinho. Fomos embora da nossa casa com roupa do corpo...


Nossa ALEGRIA foi interrompida


Passamos quatro anos morando longe da nossa FELICIDADE. No ano de 1996, em uma sexta-feira do mês de agosto, voltamos para o nosso lugar. Eu estava com dez anos e, lembrava exatamente tudo que havia deixado no passado.


Pequenas coisas haviam mudado, mas a ESSÊNCIA continuava a mesma. As árvores ao redor de casa, o MARAVILHOSO CANTO do Vim Vim, o riacho, a laje (lajedo), COMO ERA BOM! No ano seguinte eu fui estudar em outro município, morar na casa de um parente da minha mãe; não queria ir, mas cedi.


Morei um mês na outra cidade. Vivia muito doente, passei meu aniversário de 11 anos, internada, aconteceram inúmeras coisas desagradáveis, por isso voltei pra casa, na roça.


Eu não compreendia, mas era uma oportunidade que Deus estava dando-me para ser FELIZ. Chegando em casa -- havia dias que eu não via meus irmãos, eles ficaram super FELIZES quando me viram, e mais ainda por saberem que nós iríamos estudar juntos, onde foi a minha primeira escola. Na hora do recreio, nós brincávamos de roda, baleado, Maria-José-João... não tínhamos nada, mas éramos COMPLETOS...


Ás vezes, eu não saía de casa, para não deixar o TEMPO passar. Sentia-me a menina mais FELIZ e REALIZADA do Mundo, por isso queria VIVER intensamente cada momento. Eu AMAVA colocar a SEMENTE dentro da cova para nascer, assim como também debulhar milho, feijão... Uma camponesa completa.


Lembro-me das vezes que ficávamos no terreiro da frente de casa durante a noite, com o céu ESTRELADO e a BRISA leve do vento. Conversávamos bastante, meus pais contavam histórias, casos; daquela forma valia a pena VIVER!


No ano seguinte, houve mais um desentendimento com outro membro da família e nós fomos expulsos da roça da FELICIDADE. Naquele momento, eu não tinha dimensão do que estava acontecendo, embora tivesse sido o fato mais doloroso da minha EXISTÊNCIA, e cujas consequências impactaram PROFUNDAMENTE a mulher que SOU hoje.


Para eu dizer pra mim mesma que não foi nada, comecei a me fechar no meu mundo, ficar calada, não sorrir, ser ruim, chata, um horror. Foi a forma que encontrei de me vingar de tudo. Bloqueei-me pra VIDA. Não achava sentido em nada, chorava escondida, pois minha FELICIDADE havia sido interrompida, e eu não sabia lidar com a situação. Coisas BOAS não aconteceram na minha História por muitos anos, porque eu estava perdida no saudoso CAMINHO.


Perdi minha IDENTIDADE, meus SONHOS, meu imaginário, minha RAZÃO DE VIVER. Vivia presa no ódio, nada me satisfazia, eu não me permitia SER FELIZ. Estava travada.


Como se não bastasse os traumas, a depressão me maltratou por longo TEMPO, porém eu não sabia que os possuíam.


Por muitos e muitos anos, as cicatrizes desse fato me machucaram. Mesmo assim eu SONHAVA com a roça toda noite, cozinhando no fogão, subindo nas árvores, cuidando da horta, brincando de balanço. Até hoje isso ainda acontece comigo.


O TEMPO passou... Tornei-me adulta na idade, mas dentro de mim VIVIA a ingênua menininha indefesa. Sem INDEPENDÊNCIA emocional, Liberdade interior, sem ÂNIMO, nada tinha SABOR, porém eu não sabia que era pelo fato de termos ido embora do nosso “PARAÍSO”. Fui descobrir isso 19 anos depois.


Em 2017, já morando no Rio, fui à Bahia visitar minha FAMÍLIA como de praxe. Estávamos no sítio do meu tio, que fica perto da casa da saudade. Daí, chamei minha tia, meus irmãos e primos para irmos perto daquele que foi nosso antigo lar. Ao caminhar descalça por aquela humilde estrada, voltei a SER aquela criança FELIZ de quando ANDAVA por ali. O CAMINHO estava do mesmo jeito, até as árvores ao redor.


Eu senti o cheiro do mato, ouvi o CANTO da Cigarra, do Grilo. Chegando perto da casa, eu fiquei abismada como tudo estava como antes. Ao ver a propriedade da minha avó, a casa não estava mais lá. Foi derrubada há muito tempo, mas ainda está VIVA dentro de mim. Aquele momento foi LIBERTADOR, eu precisava estar ali, para DESBLOQUEAR minha VIDA. Muito MARAVILHOSO rever o lugar onde fui o SER humano mais FELIZ da História. EU VOEI!


Ao dormir naquela noite, eu FLUTUEI na cama, ACORDEI LEVE, FELIZ, foi uma sensação ÚNICA. Muitas coisas começaram a ANDAR com VELOCIDADE dentro e fora de mim. Eu precisava me RECONCILIAR com tudo aquilo, para encontrar a VERDADEIRA ALEGRIA no meu SER.


Posso afirmar que ainda hoje me lembro da casa da saudade; ela está VIVA em mim, e nada muda isso. Pois o AMOR é para SEMPRE. Sou RECONCILIADA com o doloroso fato que VIVI naquela roça. As coisas teriam sido mais LEVES se eu não tivesse odiado tudo aquilo, mas o AMOR VENCEU. Eu dei a volta por cima. Eu me LIBERTEI.


Foi preciso acontecer fatos desagradáveis para formar minha ESSÊNCIA, PROFUNDIDADE, AUTENTICIDADE, a mulher que SOU hoje, minha MISSÃO no Mundo.


A aspirante escritora foi criada na SIMPLICIDADE da casa que mais AMEI. E PARA SEMPRE VOU AMAR. Trago no CORAÇÃO a CERTEZA que TUDO valeu a pena, que a FELICIDADE é REAL, e que não precisamos de muitas coisas para termos uma VIDA INCRÍVEL. A BONDADE reside onde TRANSBORDA SINCERIDADE.

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