• Amanda Kelly

O Ano era o de 1998

Ponto de ônibus lotado, meio-dia, sol estrilando. Do alto dos meus serelepes oito anos, cara amarrada por não poder comprar os doces e chicletes da vendeira, impacientava-me ante a espera da condução.

Saudade/Foto: autor desconhecido

Enfim, chega. Os passageiros apinham-se na direção da porta, acotovelando-se, como se sentissem prazer naquela estranha tourada humana. Após o habitual pequeno embate para subir antes do vizinho, a pequena massa de gente, por fim, acomoda-se ao espaço. Por minha vez, procuro as cadeiras altas e, como que por um milagre, encontro uma vazia.


Minha tia senta-se comigo no colo. Minhas pernas roliças pendem, sujas da areia do pátio, tênis pretos, meias originalmente brancas (não tanto após uma manhã em pés infantis), short de malha vermelha com um bordado com os dizeres "Escola Viva". A pasta de plástico alaranjado de bordas carcomidas e fecho frontal descansa ao peito, recheada com o para-casa, alguns lápis já gastos e o lixo perdido do conteúdo do apontador. Meus cabelos negros cortados em Channel clássico (piolhos, quem nunca?), desgrenhados, eram uma estranha parceria entre terra e fios. Eu estava calada, pois tinha fome.


O ônibus segue viagem pela Avenida Frei Serafim, descendo o suave declive em direção à ponte, meu trecho favorito do percurso: a aceleração dava o frio na barriga pelo qual eu esperava ansiosamente. Depois deste pequeno ponto alto, a viagem adquiria monotonia.


No rádio, após uma música qualquer da moda, ouvimos (em volume nem alto, nem baixo) uma voz masculina: "Programa 'Emoções': Uma hora com o rei Roberto Carlos". Todos os passageiros, de oito a oitenta, arrefecíamos qualquer agitação e descansávamos o olhar, num leve esgar de acomodar-se melhor para apreciar aquele momento.


As músicas tocavam e nos embalavam numa quietude incomum para os ônibus da cidade, geralmente tão ruidosos. Iniciava-se um silêncio cerimonioso, só interrompido por algum "com licença" de algum passageiro precisando de passagem por entre os desafortunados que viajavam em pé. Todos respeitavam esta exata uma hora de "programa do rei": pouquíssima conversa, olhares cansados ao horizonte só interrompidos pela passagem defronte algum cemitério, quando alguns devotos faziam o sinal-da-cruz.


Nesta calmaria, o veículo deslizava moroso pelas avenidas, parando cá e lá para que subissem e descessem gentes, mas a atmosfera era mantida. Ouvir Roberto Carlos era o momento da miúda paz diária daquelas dezenas de pessoas involuntariamente reunidas que retornavam do meio do vozerio do comércio popular nas ruas, ou as crianças das cansativas salas-de-aula, ou de quaisquer outros lugares.


Eu curtia o momento me resfolegando no colo maternal de minha tia, esquecendo a fome e a minha proverbial peraltice.

Saudosos anos 90.




























































































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