• Jill Muricy

A Empregada Doméstica que se Tornou Juíza

O destino é a consequência das nossas escolhas, e não algo que já está designado a acontecer. Seja qual for sua condição social, se dentro de si mesmo houver determinação para lutar, com certeza um dia você chegará ao pódio.

Juíza Antônia Faleiros, exemplo de SUPERAÇÃO/Foto: arquivo pessoal


Há apenas uma coisa que define o sucesso de uma pessoa: a vontade de ir além dos limites impostos pelas circunstâncias e dar a volta por cima na vida.

Todo ser humano é capaz de mudar a própria história, e escrever um roteiro extraordinário para os capítulos da sua existência.


O Início da VIDA


Antônia Marina Aparecida de Paula - pela linhagem de sangue - e Faleiros por afeto. Nasceu de uma família bem simples da zona rural, do Barro Amarelo, de Serra Azul de Minas, no Vale do Jequitinhonha.

Filha de agricultores, a menina Antônia foi alfabetizada pela própria mãe Dona Maria, em casa, no lugarejo só havia uma escola primária. Ela esperou a irmã mais nova completar a idade escolar, para irem juntas à escola.


Como a vida não era fácil naquela época, às vezes, em casa faltava o leite para fazer o lanche das crianças à noite. Então dona Maria, com toda sabedoria sem deixar, transparecer as dificuldades, fazia um chá de funcho, para a garotada e dizia: ”Hoje, todo mundo vai tomar um chá para ficar forte e saudável...” quando na verdade era uma forma leve de falar para os filhos não perceberem que não tinha outra coisa para comer.

Havia muita dificuldade no lar dos Faleiros, mas a forte Maria não deixava a peteca cair.

Nossa trajetória de vida é uma espiral ascendente, como se fosse um cone invertido, até mesmo para sonhar, ter metas, objetivos e ambições é preciso ter conhecimento dessas possibilidades.


Ler, escrever, concluir o ensino fundamental, depois o ensino médio e depois querer concluir o ensino superior. Eram metas a serem alcançadas com muito esforço, mas cada coisa ao seu tempo.


Ao terminar o ensino médio no magistério, a moça estudiosa teve vontade de fazer um curso superior, nessa época ela morava em Serro, uma cidade pequena perto da sua terra natal, e não havia universidade lá. E para realizar o sonho de cursar uma faculdade, teria que ir morar em uma cidade maior, mas sem confrontar os pais, pois para a cultura da época ela poderia se “perder”, ou seja, ficar mal falada.


Então, a jovem criou um plano na cabeça para ir embora sem chamar atenção de forma negativa.

Abriu um concurso de um banco para sua cidade de origem, Serra Azul, daí ela pensou: ”eu faço esse concurso, começo a trabalhar nessa agencia bancaria, em seguida consigo uma transferência para alguma cidade maior, e aí tá aberto o meu caminho para fazer o curso superior”.


E fez isso, mas não foi aprovada no exame. Tempos depois ficou sabendo que nem corrigiram a prova dela, já haviam escolhidos os aprovados pela cor da pele e condição social. Antônia ficou decepcionada com a situação, e foi procurar emprego na capital do estado.


Ida para Belo Horizonte


Ao chegar na cidade grande, a menina do interior foi morar na casa de parentes e teve bastante dificuldade de arrumar emprego no comércio, pois não possuía uma boa aparência nem roupas adequadas, conseguiu um trabalho de empregada doméstica.


Em certo momento os parentes dela não queriam mais Antônia Marina na casa deles, então ela pediu para a patroa para ficar na casa dela, e a senhora respondeu: “aqui em casa não tem como você morar, e também negrinhas dentro de casa são uma tentação para o marido da gente”. Insultando a moça que só queria um futuro diferente daquilo que lhe era imposto.


Naquele mesmo dia ao terminar o trabalho, ela foi para o ponto de ônibus, no caminho que fazia sempre, pegar o transporte que ela costumava tomar para ir voltar casa, porém agora não tinha mais casa para ir.


Então ela ficou lá parada, sem dinheiro, sem comida, cansada depois de um dia intenso de trabalho, o que fazer? Ela dormiu no ponto de ônibus a primeira noite, a segunda, a terceira e o tempo foi passando.


Sempre amanhecia na esperança de conseguir uma amiga que a chamasse para morar na casa dela, ou poder dividir um quarto com alguém. A família não sabia de nada que estava acontecendo, em carta ela disse para a mãe que estava morando na casa da patroa, e à patroa disse que estava na casa dos parentes.


Se dona Maria soubesse a verdade, ia pedir à Antônia para volta para roça, a moça não ia confrontar a mãe, pois perderia muita coisa se fosse embora da capital.


O Primeiro Concurso Público


Daí surgiu o concurso público para oficial de Justiça do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJ), a empregada doméstica fez a prova e foi APROVADA! Há dias de luta e dias de glória.


Passou a estar no Tribunal trabalhando com juízes, desembargadores e os próprios colegas acadêmicos de direito ou bacharéis. Assim ela começou a vislumbrar o direito como uma possibilidade para sua vida. Nossos horizontes são delimitados pelos nossos pontos de observação.


A Faculdade de Direito


Antônia Faleiros, fez a faculdade de direito e formou-se em 1991, logo após a formatura, a mãe dela, dona Maria, faleceu.


Como advogada, doutora Antônia fez outros concursos, inclusive para magistratura. Mas ela não assumiu o cargo para cuidar da irmã adolescente de 12 anos, que havia acabado de perder a mãe. Então a futura juíza assumiu toda responsabilidade materna com a garota.


E trabalhou em outros empregos, foi Procuradora do Município de Belo Horizonte, e Procuradora da Fazenda do Estado de Minas Gerais. Chegou a fazer um treinamento para ser Procuradora do Banco Central, assumiu o cargo, mas não demorou nele por questões familiares.


A SUPERAÇÃO


Em 2002, fez o concurso para magistrada da comarca de Mucuri na Bahia, e é claro foi APROVADA! Depois foi morar em Itabuna, e posteriormente foi para Lauro de Freitas, no mesmo estado, e onde se encontra atualmente.

Ela é uma juíza encantada pela vida. Não guarda mágoa ou rancor pelas coisas desagradáveis que aconteceram. Nenhuma sentença dá empate, e os maiores desafios da profissão são entender as dores sociais, e lidar com as mazelas dos seres humanos.


Currículo da Juíza Antônia Faleiros


Mestra em Segurança Pública, Justiça e Cidadania pela Universidade Federal da Bahia - UFBA - (2016). Pós Graduada latu sensu em Estudos de Política e Estratégia - ADESG/MG (1997). Pós-graduada strictu sensu em Direito Eleitoral - Faculdade Mauricio de Nassau de Salvador - EMAB/FUNDACEM (2008). Graduada em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG - (1991). Procuradora do Município de Belo Horizonte- (1993). Procuradora da Fazenda do Estado de Minas Gerais. (1994/2002). Advogada. Juíza de Direito do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia - TJBA - desde 2002. Professora de Teoria da Argumentação Jurídica IFBA/FASB (2004/2005). Pesquisadora. Palestrante. Escritora.


A VIDA Atualmente


Aos 57 anos é casada, mãe, e avô apaixonada pela neta Mel, a magistrada tem um caso de amor com a própria existência, é cheia de sonhos: quer continuar lúcida e saudável por muito tempo, que os jovens amem a escola, que a sociedade tenha sonhos, quer ver a neta crescer, e as árvores que plantou darem frutos, ter mais tempo com aqueles que ela ama.

Entre muitas atividades que ela realiza no decorrer dos dias, é autora do livro ”Retalhos: Colcha de Histórias para Mel Dormir”.


A Excelentíssima Juíza Antônia Faleiros, afirma que o estudo é ferramenta de transformação, você não estuda para ser alguém na vida, você estuda porque sabe o quer da vida, porque alguém nós já somos.

O ser humano é a matéria prima mais preciosa do Universo! A escritora é uma mulher simples, sem vaidades, com uma delicadeza gigantesca. Gosta de histórias inspiradoras, mas gosta mais de gente que faz histórias.


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