• Jill Muricy

A Moça que Caiu da Ponte

É na delicadeza da nossa vida que descobrimos a importância da nossa existência para o autor dos nossos dias. Às vezes, é preciso acontecer um impacto muito grande conosco para percebermos que o tempo e a eternidade caminham lado a lado, mas não se misturam; um não toma jamais o lugar do outro.

A SOBREVIVENTE Marina Borges/Foto: arquivo pessoal


Em instantes um simples fato acontece e muda todo o cenário que nos envolve; testando nossa autoconfiança e coragem de lutar pela nossa sobrevivência. E daí nasce o olhar novo para tudo a nossa volta. Não é o ser humano que conduz a própria vida, mas o ser superior que está acima de tudo e de todos. É Ele que determina o que sai do tempo e entra na eternidade. Ele controla todas as coisas.


Uma moça alegre e estudiosa, sempre espontânea, trabalhava o dia inteiro para conquistar os objetivos. Marina Borges, tinha 22 anos, queria comprar uma casa, ela e o namorado estavam lutando para adquirir um imóvel. Ele havia acabado de mudar de emprego, ia fazer um treinamento em São Paulo. Ambos trabalhavam em uma empresa de comunicação visual e, por ser o ano da Copa do Mundo no Brasil, a empresa estava cheia de mão de obra para fazer. Por este motivo, a moça foi trabalhar durante o carnaval.


Marina era estudante de Engenharia de Produção na época e sempre fazia o mesmo itinerário: vinha de São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de janeiro, à cidade maravilhosa, todos os dias – às vezes passava dirigindo cochilando pela ponte Rio- Niterói.

Mas sempre vem aquele dia que acontece algo para mudar toda a história de uma pessoa e o olhar dela em relação à própria existência.


O acontecimento que marcou a vida


Era segunda-feira, dia 03 de março de 2014, segunda de carnaval, neste dia Marina ia levar o namorado no aeroporto, mas ele acabou saindo de casa mais cedo e ela foi para o trabalho. Estava superdisposta, embora estivesse em uma carga horária bem intensa por conta da faculdade e do trabalho. Às seis da manhã, em um lindo dia de verão, o sol nascia sobre o mar carioca e o som de uma música suave conduzia a motorista.


De repente um carro que estava à frente dela freou, e ela obviamente fez o mesmo. Como estava na descida do vão central, logo pensou: ”nossa, por que ele tá freando? Não tem ninguém na ponte...” Marina havia acabado de ganhar o carro de presente da mãe.


A queda na Baía de Guanabara


A estudante desviou o carro para a pista de alta velocidade, que por incrível que pareça não vinha ninguém no mesmo sentido, daí ela bateu na mureta que divide as duas pistas, perdeu a direção do veículo e capotou oito vezes, depois caiu no mar de uma altura de 50 metros.


Marina lembra que, quando viu o carro no mar, gritou: ”aiii”. Ela acordou caindo na água (até hoje não tem dimensão o quão grande foi a queda). Justo ela, que sempre foi amante do mar, agora precisava lutar contra ele para não morrer afogada.


Mas, uma força inexplicável arremessou Marina para fora do automóvel, e ela não teve trabalho nenhum para sair do veículo que descia rapidamente para o fundo da Baía de Guanabara. A jovem nadou alguns minutos até chegar à superfície da água, cerca de 200 metros. Havia algumas pessoas na ponte acenando para Marina e ela repetiu o gesto de volta.

Marina Borges, sendo resgatada da Baía de Guanabara/Foto: Jornal Extra


A sobrevivente estava lúcida e tranquila, boiando no mar esperando socorro. Dois homens passavam pelo local de barco rebocador, viram Marina e a resgataram.


Ela contou que estava sozinha e que o carro estava no fundo do mar. Pediu que ligassem para o namorado e para os pais dela para contar o fato, enquanto aguardava a chegada do Corpo de Bombeiros. O rapaz não viajou porque um grande nevoeiro cobriu o céu do Rio naquela manhã e o voo dele foi cancelado. Isso possibilitou que ele acompanhasse a namorada no hospital.


Apesar das circunstâncias, todas as coisas concorriam para o bem daquela menina extrovertida.

Os bombeiros chegaram até o barco que Marina estava, e levaram aquela que acabara de ter uma nova chance para o hospital. Ao chegar na casa de saúde, ela deu chilique porque não queria que cortassem as roupas que usava e o anel de ouro (vivia apegada à coisas). Mas depois de muita conversa, o namorado a convenceu fazer o certo.


Em relação à cirurgia, o médico precisava abrir pescoço e barriga, e ela fez outro escândalo, porque não queria ficar com cicatriz, mas aceitou a situação. No acidente Marina estourou o baço e estava tendo hemorragia interna. Ela caiu na água do lado esquerdo, o pulmão comprimiu na queda, mas no hospital ele já funcionava normalmente. O cirurgião retirou um pedaço do fígado que estava comprometido e o baço.


Após as cirurgias, foi transferida para outro hospital. Ao todo ficou internada 14 dias e teve alta, uma semana depois retornou para retirar os pontos e precisou fazer nova cirurgia para drenar a água na perna. Após mais uma semana internada voltou para casa. Não sentia dores, sempre foi muito animada, sorria com tudo.


Até os médicos elogiavam a autoestima da moça, diante da fisioterapia, medicação e a imprensa. Todo o acontecimento fez Marina acreditar mais em Deus, e ela fielmente acredita que tem uma missão muito grande na terra, mas ainda não sabe qual é.


Quando sofreu o acidente havia feito um processo seletivo de emprego em uma empresa, com uma entrevista na quinta, outra na sexta e na segunda sofreu o revês. A companhia ficou ciente do ocorrido e aguardou pela recuperação dela para fazer a última entrevista e ocupar o cargo que estava esperando por ela. No mês seguinte começou a trabalhar, ficou nessa empresa por quatro anos e meio até ir morar na Europa.


No mesmo ano de 2014, concluiu a faculdade, o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) estava no carro quando capotou, as folhas do projeto ficaram espalhadas na ponte, pessoas recolheram e entregaram no hospital que Marina estava internada.

Marina saindo do hospital ao lados dos pais, Silvia Pinto e Mario Borges/Foto: arquivo pessoal


A SUPERAÇÃO


Há três anos, foi fazer intercambio na Irlanda, depois foi morar em Portugal, lá conheceu o grande amor da própria vida e há duas semanas eles casaram. Ambos moram na Suécia, ele é sueco.


Nos próximos dias o casal vai passar a lua de mel em Portugal, e nos mês de julho, Marina vem passear no Brasil para matar a saudade da família. E o marido volta para Suécia.


Na Europa apesar dos perrengues que ela passou, Marina consegue ter um padrão de vida que não conseguiria ter no Brasil, por esse motivo ela não pretende mais morar no país de origem. É feliz com as coisas que conquistou por lá.


Atualmente, Marina tem 29 anos, é cheia de vitalidade e amigos, sonha em ser mãe e abrir uma clínica de estética (nunca trabalhou como engenheira). Mas pretende fazer um mestrado na área. Com alegria contagiante ela é fiel à própria existência, não perde nenhuma oportunidade de ser feliz. Até hoje o carro do acidente está no fundo do mar. Marina vive muito bem sem sequela nenhuma daquela experiência.

A VENCEDORA Marina Borges, atualmente/Foto: arquivo pessoal


O ser humano é cercado de mistérios por todos os lados, ninguém impede aquele que nasceu designado a cumprir uma determinada missão no mundo. O autor do tempo não cochila, Ele sabe quem escolhe e porque escolhe, e não precisa forçar porque uma coisa só acontece quando tem que acontecer. No mesmo lugar onde muitos perderam a vida, foi o local do renascimento, que marcou a história da fluminense que é um milagre, Marina Borges.

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