• Jill Muricy

A Mulher que não se ENTREGA a Dor

Viver é simples, mas não é fácil! A trajetória humana possui constante surpresa, é o sofrimento acompanhado da dor que desperta em uma pessoa o desejo profundo de conhecer a felicidade. Mas, uma pessoa feliz não está isenta de sofrer, ou de passar pelos maiores desafios na existência terrestre.

Regina Jardim, exemplo de SUPERAÇÃO/Foto: arquivo pessoal


A vida é um mistério, composto de alegrias, realizações, júbilos, lutas, perdas, felicidades, frustrações, fracassos, motivações. Embora, todos esses acontecimentos sejam inevitáveis, nenhum deles é eterno. Até o tempo é dinâmico, e nada fica estático no mesmo lugar, tudo passa, tudo muda, somente o Amor dura para sempre!


É quase uma raridade, mas existem pessoas que mesmo sofrendo não perdem o encanto pela vida, seguem lutando pelos objetivos. Elas conseguem ver a vida além das difíceis situações vividas, e não carregam mágoas ou revoltas em seus corações. Por onde passam semeiam inspiração no caminho daqueles que estão dispostos a serem diferentes.


O Início da VIDA


Regina Célia da Costa Jardim, nasceu de uma união improvável, no dia 24 de março de 1960. Pois os avós maternos dela não queriam que a filha loira de olhos azuis, protestante, se casasse com um homem católico negro. A menina de Cruzeiro, interior paulista, chegou ao mundo no dia que caiu uma forte tempestade. Mas encontra calmaria quem procura por ela.


Ao completar três aninhos, o pai de Regina foi embora, e a criança passou a morar com os avós. Apesar da ausência paterna, a garota teve uma infância saudável, com muita diversão, brincava de roda na rua, pique esconde, jogava bolinha de gude, soltava pipa, e ainda pescava com o tio.


Gostava de subir na goiabeira, e no telhado de casa. Foi alfabetizada na fé católica, por uma freira, na capela do frigorífico do avô protestante.

Regina, sempre foi encantada pela pessoa do avô, a paternidade dele era muito forte na vida da netinha. Ela foi para a escola aos sete anos, e ficou encantada quando aprendeu a escrever: nascia ali um grande talento através da escrita. Sem contar que dos sete aos nove anos ela leu a bíblia inteirinha, pois era o único livro que havia na casa.


Ficou apaixonada pelos reis, a cultura judaica, as mulheres fortes: Raquel, Lia, Ester. Quando passou a frequentar a biblioteca da escola lia três livros por semana.

Na adolescência, Regina queria ser médica, sempre muito inteligente, a segunda melhor da turma, mas a mãe dela deixou bem claro que aquele sonho era impossível pela realidade da família.


Ela começou a namorar aos 13 anos, e aos 14, a trabalhar em um escritório. E aos 16 anos se casou com o primeiro namorado. Voltou da lua de mel grávida.


A VIDA da mãe de FAMÍLIA


A bebê Priscila nasceu de oito meses, mas cheia de saúde. Regina teve cincos filhos, um homem e quatro mulheres. Sempre sonhou em ter uma família grande.

Mesmo sendo uma mãe dedicada, Regina não perdia o foco na leitura. Cuidava muito bem das crianças. Em casa ela fez um lindo jardim, uma horta, além de tricotar e costurar vestidos para suas meninas.

Os cinco filhos de Regina: Priscila com a irmã Lailah, no colo, Fábio de chapéu, Patrícia à esquerda, e Fabiana com fantástico de bruxa, prima Samia à frente, e primo Gustavo à direita/Foto: arquivo pessoal


O marido dela trabalhava com o pai dele em uma oficina de pintura e fazia faculdade de Educação Física. Quando ele terminou o curso continuou trabalhando com o pai. Como Regina se sentia dependente da família do sogro, resolveu voltar a estudar para ter independência financeira. Daí ela foi cursar Educação Física (passou em primeiro lugar no vestibular).


Ganhou uma bolsa da faculdade, e durante esse período engravidou da filha caçula, Lailah. Ela escolheu o curso não apropriado ao seu perfil, não teve bom desempenho. Mas, logo nos primeiros dias de aula fez parte do diretório acadêmico, responsável pela parte cultural, no qual fundou um jornalzinho acadêmico chamado “Estopim”.


Ao terminar Educação Física, no ano seguinte prestou vestibular para Letras, mesmo sendo mãe de cinco filhos, Regina queria ter uma vida sossegada ao lado da família, através do conhecimento adquirido pelos estudos.


Ao iniciar Letras, o casamento chegou ao fim, e a pensão alimentícia não dava para manter os filhos. Daí ela foi trabalhar como empregada doméstica, confeiteira de bolos e tortas e fazendo congelados.


As duas filhas mais velhas saiam toda tarde com uma cestinha para vender os doces, e Regina vendia bolo na faculdade à noite. Além de fazer alguns bicos como a correção de um jornal, perto de casa.


Tempos depois, a guerreira mulher passou em um concurso de um Banco para atuar como caixa, trabalhou vários anos na instituição, mas depois de um desentendimento com o gerente da agência, Regina foi despedida. Posteriormente, passou em outro concurso de outro banco, mas dessa vez foi em outra cidade, ela teria que abrir mão de morar com as crianças para assumir o cargo no novo emprego.


Houve um acordo e as crianças ficaram com o pai, até que Regina se adaptasse a nova rotina. Pela manhã e à noite ela dava aula em uma escola perto de casa e à tarde trabalhava no banco. Mas a saudade dos filhos doía muito. Todo fim de semana a bancária viajava para Cruzeiro, para ver as crianças.


Regina queria pedir demissão do banco e voltar de vez para Cruzeiro, para ficar com os filhos. Após entregar currículos, foi chamada para lecionar na Escola Técnica da cidade, e ficar de vez na própria terra natal.

O ambiente escolar era exemplar, Regina trabalhou vários anos na instituição, inclusive lá ela foi professora dos próprios filhos.

Passou no concurso para essa mesma escola, na qual passou a ser coordenadora pedagógica. Após um tempo fez uma pós- graduação em Linguística.


Primeira perda Irreparável


Regina estava vivendo um momento muito tranquilo da vida, os filhos estavam crescidos e trabalhando. A Filha mais velha Priscila, já morava sozinha. Era formada em Geografia, trabalhava como recepcionista Bilíngue em uma indústria de papéis. E havia tomado a decisão de fazer o vestibular para comércio exterior.

Priscila Jardim, foi assassinada aos 29 anos, pelo namorado/Foto: arquivo pessoal


Certa vez, chegando ao fim do outono, Regina estava vendo uma reportagem na televisão sobre neblina que causava vários acidentes, principalmente na região da cidade que morava. Então, ela ficou preocupara com Priscila, porque ela viajava muito com as amigas, temia que algo ruim pudesse acontecer com a filha.


Era quarta-feira, dia 06 de junho de 2007, ao chegar da escola em casa, a empregada de Regina pergunta se ela havia conseguido falar com a Priscila, pois ela havia ligando para casa três vezes, tentando falar com a mãe. Surpresa, a professora respondeu: “Nossa, mas ela sabe que eu saio da escola meio dia”, daí Regina ligou para a filha, e Priscila disse que não era nada demais, só queria saber se no sábado (pós feriado), a mãe estaria em casa.


Regina, respondeu que sim, e perguntou: “filha, você e seu namorado vão viajar neste feriado”? Priscila respondeu que não, porque estavam sem dinheiro. O desejo da filha era apenas almoçar com a mãe no sábado. Mas o almoço não aconteceu! Pois a moça foi tirada violentamente da vida.


Nessa época Regina estava morando com a filha caçula, Lailah, em casa. Na madrugada de sábado, a educadora dormia na mesma cama com a neta de apenas quatros aninhos. Lailah estava no outro quarto. De repente o telefone tocou por volta das 04h30, Regina atendeu assustada, era um amigo da família, dizendo que o namorado da Priscila havia feito uma coisa muito ruim com ela. Ele estava chorando, e desligou o telefone sem dar detalhes.


Daí Regina entrou em desespero, depois Lailah retornou a ligação para o amigo que confirmou: Priscila foi morta com cinco tiros, um no estômago e quatro na cabeça. O namorado não aceitou o fim do relacionamento de apenas três meses e tirou a vida da jovem. Uma moça linda, inteligente, cheia de sonhos. Que ansiava almoçar com a mãe, no dia que morreu.


Na adolescência, o assassino foi aluno de Regina, ele causava problemas constantemente na escola, só vivia na sala da diretora, a educadora, por sua vez nunca foi com a cara dele. No fundo, ela sentia que aquele garoto quieto causador de confusão, lhe causaria uma profunda dor.


Naquela manhã turbulenta, na qual arrancaram um pedaço de Regina, ela entrou em pânico completamente. Lailah precisou sacudi-la para voltar a si. Minutos depois, Fabiana outra filha, chegou com o namorado, e todos Foram para a Santa Casa, mas o corpo de Priscila não estava lá, depois o encontraram no Instituto Médico Legal (IML).


Regina tem pouca lembrança do velório da filha. Comenta que Priscila estava linda, mas com o olho roxo. Foi a filha Lailah que maquiou, colocou a roupa e perfumou a irmã. A mãe não saia de perto do caixão um minuto, nem para ir ao banheiro, ela queria aproveitar os últimos minutos ao lado da filha.


Para cuidar da situação, Regina procurou uma advogada, fez questão que fosse uma mulher para cuidar do caso. A professora, foi pesquisar na internet sobre o caso e viu que um grande número mulheres também foram assassinadas por seus companheiros. Mas Regina, não queria que outras mães passassem pelo que ela passou, daí criou uma página em uma rede social para ajudar outras mulheres.


Depois do julgamento do assassinato de Priscila, a coordenadora pedagógica percebeu que a luta havia “acabado”, mas não tinha a filha de volta. Após dois meses, ela voltou aos poucos para o trabalho, saiu da coordenação da escola, e de alguns projetos. Ficou somente com a sala de aula. Ela foi muito amparada pelos alunos, eles organizaram uma missa linda para Priscila. Regina voltou para a vida quase normal, aos poucos ia caminhando, mas nunca ficava parada.


Segunda Perda Irreparável


Regina e Lailah, eram acompanhadas por dois psiquiatras diferentes, as duas moravam juntas, mas aquela casa tão grande, que vivia cheia de gente alegre, dessa vez, se encontrara vazia. E Lailah não queria mais fazer terapia, dominada por um forte desânimo, não achava mais sentido em nada. Ela não soube lidar com a perda da irmã, sofria muito, às vezes, em silêncio.


Um ano e oito meses depois da morte de Priscila, em 2009, a mãe de Regina retirou um câncer dos lábios, e ela acompanhou a mãe no hospital em outra cidade, após a cirurgia continuou acompanhando a mãe em casa. Havia deixado na própria residência a Lailah com a empregada.


A senhora Jardim acordou quase amanhecendo o dia, no mesmo horário que recebeu a ligação que avisava sobre a Priscila. Mas dessa vez era a Lailah que ligou para o celular da mãe e dizer que a amava, mas ia se matar, e desligou o telefone. Regina desesperada ligou para polícia, bombeiros, para tentar impedir a morte da filha, ela ficou incomunicável, pois havia tirado o telefone fixo da tomada.

Lailah Jardim, tirou a vida em 2009/Foto: arquivo pessoal



Regina ligou para outras filhas que moravam perto da casa onde a moça estava, mas ao chegarem ao local, encontraram a Lailah morta. Ela se enforcou no suporte da televisão do quarto. Após esse episódio, Regina tentou o suicídio três vezes.


Depois que a Lailah partiu, Regina não demorou em voltar ao trabalho, logo foi aposentada, e viajou para outro estado, ficou um tempo com a irmã em outro estado, porque não estava preparada ainda para morar sozinha.

Reforçou a pagina “Quem Ama Liberta” de mulheres assassinadas no Brasil, para conscientizar a sociedade dessa grande estatística.

A SUPERAÇÃO


Atualmente, a família costuma reunir-se todo fim de semana, a alegria voltou a reinar em casa. Regina costura, faz roupas para os netos, poesia, bordado, ama dançar, escrever e ler. Aposentada, aos 61 anos, o lugar que ela mais ama na vida é a escola, voltou a estudar, está no sexto semestre de Direito. Nunca é tarde para ser feliz e correr atrás dos objetivos.

FAMÍLIA reunida: Regina, as filhas Fabiana e Patrícia, o filho Fábio, os netos Isabela, Vitor, Matheus, e Lívia, e os pais Maria e Zenahir/Foto: arquivo pessoal


Ela vive em paz com a própria consciência, sabe que as filhas que faleceram estão bem. Para Regina seria mais pesado se ela fosse mãe de um assassino. A mãe entregou as filhas a Deus e seguiu lutando, sem entregar-se ao desânimo em momento algum.


As duas filhas que estão vivas, são excelentes mães, o filho é professor de geografia, mas ainda não se casou. Sonha em ter a casa de apoio Priscila jardim para mulheres com relacionamento abusivo, ainda toma remédio, mas não tem a depressão de antes. Os pais dela ainda são vivos. Ela quer escrever mais um livro de poesia. É coautora dos "Alma de Quintal" e "Vozes Femininas".


Ser forte é encontrar força no sofrimento e ser feliz apesar dele. A ciência diz que a maior dor da história da humanidade, é uma mãe perder um filho. E a Regina, que perdeu duas filhas violentamente. E mesmo assim encontrou sentindo para viver. Fez poesia da dor. Enxergou a vida além dos dias cinzentos, ela sabia que o sol chegaria para ilumina e aquecer os seus inspiradores passos, com marcas profundas de superação.

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