• Jill Muricy

A VIDA é Melhor HOJE

A natureza é perfeita, e com toda sua delicadeza ela tem uma forma extraordinária de se comunicar com as pessoas.

Ricardo Shimosakai, exemplo de SUPERAÇÃO/Foto: arquivo pessoal


O vento forte vem para provar que as raízes da nossa essência são profundas, e não para bagunçar nossa vida. Uma casa bem edificada jamais será levada pela forte ventania.

O Início


Para o paulistano Ricardo Shimosakai, o vento impetuoso veio para soprar novas oportunidades em uma vida que estava perdendo o sentido existencial. pois nem todo acontecimento ruim é um mal.


Shimosakai é descendente de japonês, mas sempre morou na capital paulista, em toda sua trajetória no Brasil, visitou o Japão quatro vezes, e cada vez ficou lá por um ano.


Ricardo teve a infância muito feliz, em um bairro tranquilo em uma rua sem saída, brincava com os amiguinhos até tarde, sem medo ou preocupação da violência urbana.


Entre esse período e adolescência o garoto fez escotismo, integrou o grupo escoteiro por muito tempo e mudou de “patente” várias vezes. Essa atividade foi fundamental para formar inúmeros valores na trajetória de Ricardo. O menino era alegre, animado, e possuía muitos amigos.


Desde criança ele brincava de aviação, montava modelos de aviões de plástico, cogitou entrar para a Força Aérea Brasileira (FAB), pensou em ser aviador, mas depois desistiu porque não queria levar uma vida militar. Aos poucos o caminho que devemos trilhar se apresenta em nossa simples caminhada.


Desde muito jovem, ele começou a ter epilepsia, a crise estava ligada à questão psicológica, na adolescência foi o pico da doença, quando foi prestar o primeiro vestibular teve forte alteração no quadro de saúde e foi parar no hospital. Esse fato aconteceu por três anos seguidos, sempre na data da prova, até que o rapaz desistiu completamente de prestar o exame.


o paulistano almejava trabalhar na área de publicidade, já havia atuado no segmento e procurava uma oportunidade de emprego em comunicação visual. Então, ele viu um anúncio no jornal, ao procurar pela vaga, não era o que ele desejava, e sim para ser vendedor de porta em porta.


A princípio ficou resistente ao cargo, mas procurou se aprofundar no assunto, começou acompanhar um dos campeões de vendas da empresa e, Ricardo também se tornou um dos campeões de vendas, pela sua persistência. Isso o ensinou muito na vida, e para o trabalho que desempenha hoje.


O Sequestro Relâmpago


A existência humana tem seus mistérios, e a vida de Ricardo começaria a seguir o próprio roteiro, com certeza seria aquele que ele nunca havia imaginado para si, mas ele enfrentaria o desafio com sabedoria e inspiração.

Ricardo na época do Escotismo, em viagem ao Japão/ Foto: arquivo pessoal



Em uma de suas viagens ao Japão, Ricardo voltou ao Brasil em 28 de fevereiro de 2001, daí ele foi visitar alguns amigos no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, em 17 de abril do mesmo ano. O então empresário estava usando terno, e portando uma pasta com dinheiro, em certo momento ele mexeu em alguns dólares, dentro de estabelecimento, no local havia olheiro que indicou para os comparsas que estavam fora do ambiente pegarem Ricardo.


Tratava-se de um sequestro relâmpago, os bandidos esperaram Shimosakai se afastar do aeroporto, porque lá dentro tem a Polícia Federal, e em uma emboscada pegaram o descendente de japonês e o colocaram dentro de um carro.


O rapaz ficou bastante surpreso, sem entender absolutamente nada, os sequestradores levaram Ricardo ao banco para sacar dinheiro em um caixa eletrônico. Porém, antes dele viajar para a Ásia, havia encerrado todas as contas de banco no Brasil.


Então teve medo de chegar na agência e ser morto pelos bandidos por não ter dinheiro. A caminho da instituição financeira, o carro parou no semáforo, Ricardo abriu a porta do veículo e saiu correndo, daí a os criminosos atiraram. A bala pegou na região no tronco, passou bem perto da coluna e queimou a medula óssea.


Ele ficou ensanguentado no chão, não perdeu a consciência enquanto aguardava por socorro. Logo em seguida chegou a polícia e o levou para o hospital, a sirene da viatura estava quebrada, os policiais gritavam para abrirem espaço no trânsito (eles se esforçaram para salvar a vida do rapaz) que teve lesão medular, o que o impossibilitou de voltar a andar. Estava destinado a uma cadeira de rodas que seria enfrentada com muito entusiasmo.


A Arte de REAPRENDER


Na reabilitação, Ricardo teve boa aceitação de si mesmo e das pessoas próximas, afinal de contas ele precisava começar do zero, estava sempre alegre, e reconciliou-se com o que aconteceu. E daí surgiu uma nova vida com esperança! Não se deve chorar pelo leite derramado. É preciso ver as coisas com outros olhos.


Tudo tem um ensinamento, e não é bom ficar remoendo as coisas desagradáveis. Ricardo afirma que não se lembra do tiro como uma amargura, mas como algo que o despertou!


Aprender andar de cadeiras de rodas é andar com as mãos, aprender a tomar banho, trocar de roupas, são os maiores desafios no início da reabilitação, pois até organismo funciona diferente.


Para educar o horário de urinar, Ricardo usa sonda na bexiga, não abre mão de exercícios como hidroterapia e natação. Procurou fazer esporte, pois queria se encontrar em alguma modalidade, fez basquete mas não gostou.


Ao fazer tênis de mesa, o esporte preferido dele, cresceu na atividade e começou a participar de campeonatos, ganhou medalhas, viajou para competir em outras cidades. A deficiência não é impedimento para ser feliz e realizar o que quiser.

“A vida é melhor hoje, antes não tinha sentido, hoje tem propósito: ajudar as pessoas serem felizes como eu sou! O objetivo é ser feliz, a felicidade também está em dar a felicidade para os outros”, afirma o cadeirante.

As pessoas não precisam de dinheiro e sim de motivação, Ricardo ama passear e viajar, vai ao cinema, teatro, exposições, participa de campeonatos, concluiu a faculdade de turismo após levar o tiro, fez o melhor Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da turma, o qual foi apresentado em outros países.


Início de uma Grande Missão: O Turismo Adaptado


Ricardo criou ainda quando era acadêmico uma agência de aventura para pessoa com deficiência, no começo chamava de “Turismo e Aventura Adaptado” depois de “Turismo Adaptado”, e assim é até hoje. A empresa desenvolve condições de acessibilidade para pessoas com deficiência, procura vencer as barreiras da dificuldade no cotidiano, sem deixar de aproveitar cada oportunidade de ser feliz mesmo com as limitações do corpo.

Este trabalho é reconhecido pelas pessoas ao redor do mundo. E o fundador já foi convidado para palestrar na Alemanha, México, Portugal, Colômbia, Espanha.

No Brasil tem poucos profissionais, Ricardo é o pioneiro desse ramo. Como turismólogo, já transitou por todas as áreas do turismo: hotelaria, restaurantes, guia de turismo, e agências de viagens (já teve uma), nos dias atuais trabalha para passar o conhecimento com consultorias, cursos, palestras, aulas, treinamentos e projetos. (turismo adaptado é um departamento do Ricardo Shimosakai), especialista em acessibilidade.


A VIDA Atualmente


Ricardo Shimosakai, aos 53 anos, sonha com seres humanos felizes, e acessibilidade e inclusão às pessoas com deficiência. Ele é apaixonado por fotografia, prática que aprendeu ainda muito jovem.

Shimosakai em uma de sua palestras/Foto: arquivo pessoal


O turismólogo é Professor de MBA de Gestão em Hotelaria de Luxo, MBA de Gestão de Eventos e Cerimoniais de Luxo e de Pós Graduação de Arquitetura e Hotelaria.

Além disso, Shimosakai escreve para vários meios de comunicação e ministra palestras motivacionais por todo o mundo. Vive acreditando em uma sociedade mais adaptável para pessoas com deficiência.

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