• Jill Muricy

O Fracasso que é o Maior SUCESSO

Todo ser humano tem a necessidade de ser guiado pelo que os olhos não podem ver, e enxergar a vida além das circunstâncias que o cercam.

Frei Anselmo Fracasso no Convento de Santo Antônio, na cidade do Rio de Janeiro, em 16 de Julho de 2021/ Foto: Jill Muricy



Às vezes, o sucesso vem disfarçado de fracasso, para que uma coisa boa possa acontecer, antes acontece algo desagradável, para compreender-se que, de todo mal, o autor do tempo tira um bem infinitamente maior, do que o “prejuízo” causado.

Ainda que o propósito não seja visto de imediato com os olhos humanos, é possível enxergar além da visão, pois a luz que ilumina a jornada terrena é sobrenatural, e elimina toda espécie de escuridão.

A Origem


A superação escolhe a dedo em quem ela quer se manifestar e tornar exemplo de esperança para a humanidade, dessa vez ela escolheu Mário Iraí, que no futuro se tornaria o frei Anselmo Fracasso.


Ele nasceu em 31 de outubro, de 1930, em Erechim, no Rio Grande do Sul. O caçula de 11 irmãos, filho do casal Guerino Fracasso e Hermínia Mattiello, ambos italianos. A honrada família Fracasso era composta de camponeses e tradicionalmente católica, conservava a fé em Deus e os bons costumes. Sendo exemplo de vida cristã.


Em 1919, época da pandemia da gripe espanhola, a família Mattiello foi visitada por perdas irreparáveis: naquele ano, Hermínia possuía apenas três filhos, que foram contagiados pelo vírus e morreram todos na mesma semana, eles tinham entre um e cincos anos.


A mãe do futuro sacerdote, também contraiu a doença, foi dada como morta e durante o próprio velório ela abriu os olhos de dentro do caixão e perguntou:” o que vocês estão fazendo?” todos que estavam presentes, saíram correndo. Após a ressurreição, Hermínia ficou saudável e deu à luz mais oito filhos, inclusive ao frei.


Na infância, Mário foi coroinha na igreja da cidade, e o exemplo do frei Celestino, foi o que despertou na criança, o desejo de seguir a vida religiosa.


O chamado de Deus na vida de Mário Iraí foi bem cedo, logo na adolescência, aos 13 anos, ele entrou para o Seminário, em Santa Catarina. Depois continuou estudando em Rio Negro, no Paraná, logo após foi transferido para a cidade de Agudos, em São Paulo, onde concluiu o segundo grau.


O Maior Desafio


Antes de concluir os estudos, o futuro frei, foi visitado por uma perda irremediável. Os seminaristas da Congregação organizaram um passeio em harmoniosa fazenda, onde havia um poço de água cristalina à beira de um pântano.


Todos beberam daquela doce água, inclusive o seminarista Mário, que ao tomar o líquido sentiu uma forte dor na barriga como se estivesse engolindo agulhas.

Coisas boas e ruins chegam sem avisar, a sensação que o futuro sacerdote estava sentindo era angustiante.

Após o passeio, ele passou vários dias acamado e com febre de 40 graus. Um mês depois, começou a ficar com a vista ofuscada, aos poucos chegava na vida daquele estudante um enorme e delicado desafio, que precisaria ser enfrentado com muita sabedoria.


Em dois meses, após saciar a sede com aquela água que parecia pura, o jovem Iraí, aos 22 anos, perdeu completamente a visão. Para a surpresa de todos, principalmente dele mesmo. E agora, como continuar com os estudos para torna-se frei, se a igreja não ordenava deficiente visual?


No coração daquele rapaz havia uma esperança: pois cegos estavam os olhos, mas a fé continuava inabalável. Os fiéis da paróquia organizaram uma romaria para Aparecida. O seminarista foi com muito entusiasmo pedir à Nossa Senhora a graça de voltar a enxergar, ao entrar no Santuário, colocou a medalha milagrosa nos olhos, mas o milagre não aconteceu.

Não aconteceu do jeito que ele queria, mas do jeito que Deus achou melhor. O Senhor estava no controle da situação com ou sem milagre.

Após esse fato, Mário voltou para Agudos muito triste, arrasado. O frei Cipriano, diretor do seminário o viu desanimado e disse-lhe: ”Olha, não fique triste, se Deus quer você como padre, você vai ser padre, com ou sem vista. Mas, agarre-se a Nossa Senhora das Graças...” dito isso, o então seminarista seguiu o conselho do diretor e a partir daquele dia, todas as portas foram se abrindo.


A SUPERAÇÃO


Certa vez, ainda morando no interior paulista, o jovem estava na frente do seminário com a mala na mão, pois os superiores do ensino acharam melhor ele voltar para casa.


Antes de pegar o transporte para ir embora, chegou até ele o frei Lodovico Gomes de Castro, que morava na cidade de São Paulo, e conhecia a história do jovem. Curioso para saber o que estava acontecendo, perguntou: “para onde você vai?” Mário respondeu que ia voltar para Erechim, no Sul. O frei insistiu: “lá têm bons médicos?” o futuro sacerdote respondeu que não, pois a família dele morava na roça e não havia médico algum.


Então, o frei disse: “moço, venha comigo para São Paulo!” e ele foi.

Ao chegar na capital paulista, ele ficou no Convento de São Francisco de Assis, onde foi muito bem recebido e atendido por bons médicos. Fez dez cirurgias na vista, e um longo tratamento, mas sem bom resultado.

Enquanto lutava para recuperar a visão, estudou o método braile, aprendeu a datilografar, ler e escrever no idioma para deficientes visuais.


Após um ano afastado, retornou ao seminário para continuar com os estudos. Tempos depois foi para Curitiba, no Paraná, onde cursou Filosofia. Em seguida, entrou na faculdade de Teologia, em Petrópolis, no Rio de Janeiro. Recebeu autorização do Vaticano para ser sacerdote, e foi ordenado na Ordem dos Frades Menores(OFM), no dia 04 de outubro de 1962, tornando-se frei Anselmo Fracasso.


O segundo sacerdote cego ordenado pela igreja católica no mundo. Ele celebra a missa de cor, pois a igreja não tem missal em braile.


O PERDÃO após 25 anos


Em 1949, Guerino Fracasso foi para a cidade de Salto Veloso, em Santa Catarina, ensinar o ofício de ferreiro ao sobrinho, e nos fins de semana voltava para Erechim. Essa rotina se repetiu por três anos, mas houve um sábado que o pai de família não voltou para casa. Todos ficaram desesperados, procuraram pelo senhor em vários lugares, mas não o encontraram, e foi dado como desaparecido.


Três anos depois, em 1952, um homem comprou uma terra na mesma região do desaparecimento do italiano, ao lavrar a propriedade encontrou uma ossada humana no solo. Ao acionar a polícia foi constatado que se tratava do senhor Guerino, inclusive junto ao esqueleto estava uma faca que pertencia a ele com o próprio nome escrito.


A mala que frei Fracasso ganhou do pai para entrar no seminário, foi a mesma que carregou a ossada dele de Santa Catarina para ser sepultada no Rio Grande do Sul.


Frei Anselmo viajava o país inteiro palestrando para jovens, casais, paroquianos. Em 1974, após 25 anos ter perdido o pai, ele foi dar uma palestra em Água Doce, perto de Salto Veloso, lugar onde o ferreiro sumiu.


Quando frei Anselmo terminou de celebrar a missa, um rapaz juntamente com o pai foram procurar por ele na sacristia, o jovem pediu ao frei que consolasse o senhor, porque ele estava muito desanimado. O moço ficou surpreso ao saber que o sacerdote era cego, porque o pai dele também possuía deficiência visual.


Ao conversar com o frei, o senhor disse que havia ficado preso 20 anos, e na prisão perdeu a visão. Pai e filho se despediram do sacerdote e foram embora.


Minutos depois chegou uma senhora perguntando o sobrenome do frei, pois há muitos anos naquela região haviam matado um homem com o nome Guerino Fracasso. A mulher perguntou se o falecido teria algum parentesco com o frei, e ele que afirmou que o senhor assassinado era o seu pai. Dito isso, a senhora começou a chorar e falou: “você acabou de consolar o homem que matou seu pai”.


No dia seguinte, frei Anselmo foi à casa do assassino com dois homens que o conduziram, chegando lá começou a conversar com o senhor e disse: “eu sou filho do Guerino Fracasso, o homem que o senhor matou”, o ex-presidiário ficou nervoso. O sacerdote afirmou que não estava ali para se vingar, e sim para perdoá-lo.


O Ministro de Cristo queria saber da história toda como aconteceu, então o pai de família narrou o fato: ele e outro companheiro mataram o senhor Guerino com 27 facadas.


O frei e o assassino ficaram conversando por muito tempo, foi despertado o arrependimento naquele homem, ao perceber que ele estava arrependido, o sacerdote rei deu-lhe a absolvição. Ergueu a mão para dar o perdão ao assassino pensando, ele ergueu a mão dele para matar meu pai, agora eu ergo a minha para perdoá-lo.


Naquela mesma tarde, durante a missa, frei Anselmo colocou o senhor ao lado dele no altar, e deu-lhe a santa comunhão. A mesma mão que matou um filho de Deus, recebeu o Corpo de Cristo, autor da vida. Ao terminar a celebração, muitas pessoas que estavam sem se falar se reconciliaram, por causa do perdão do frei, ao assassino do seu pai.


A VIDA Atualmente


Hoje, frei Anselmo Fracasso está com 90 anos, é escritor, autor de 15 livros, publicados em vários países. O idoso possui uma excelente memória, tem a vida ativa na Igreja, e preside missa todos os dias. Perdeu a conta de quantos casamentos, batizados, retiros e palestras já realizou em toda sua história na Igreja. Tudo fez por amor a Deus.


O sacerdote é completamente feliz e realizado, e na sua longa caminhada religiosa, comenta que a confissão que mais o impressiou foi a da própria mãe, que se confessou com ele foi. É inspirando por muitas pessoas, principalmente pela escritora americana Helen Kelly.

Frei Anselmo com a medalha de Tiradentes, com a qual recebeu uma Mensão Honrosa/Foto: Jill Muricy


O frei reside no Convento de Santo Antônio, na cidade do Rio de Janeiro, há mais de 60 anos. Durante a jornada sacerdotal formou mais de 200 seminaristas cegos para se tornarem padres. Ele afirma que os maiores professores que existem são as crianças.


A flor lança a raiz na terra suja, a sujeira junto à raízes não contamina a flor com sua beleza e perfume. Ela cresce bela, pura e perfumada sobre a podridão da terra. E ainda perfuma as mãos de quem a esmaga. Assim é a nossa vida: o que importa não é o ambiente que estamos, e sim aquilo que somos e fazemos. No mundo cheio de podridão o que importa é a pureza da alma!

O mistério da vida está nas coisas simples, frei Anselmo Fracasso deixou de enxergar com os olhos e passou a ver com alma. Deus o queria sacerdote e ele tornou-se representante de Cristo mesmo depois de cego, Deus é Deus e Ele não volta atrás.



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