• Jill Muricy

Pai, eu sou o teu SUCESSO!


Meu PAI, um mês antes de morrer

Seria tão bom se as pessoas que amamos durassem para sempre. Se pudéssemos entender metade dos fatos que nos acontecem no decorrer dos dias, levaríamos uma vida mais tranquila no teatro existencial. Sabemos que a vida é breve. Mesmo assim, nos desesperamos quando alguém parte deste mundo, onde exatamente tudo é passageiro. Exceto o amor, o único que ultrapassa os limites do tempo. Por esse motivo, temos que viver o dia de hoje como se fosse o último dia da nossa existência. Ainda que nos sintamos pessoas financeiramente ricas e indestrutíveis, um dia todo mundo, sem exceção, vai morrer. Ter um grande pai é um privilégio incalculável, mesmo que ele já tenha ido morar na eternidade...Não tenho palavras para descrever quem foi meu pai na minha vida. Fui educada desde cedo na escola do caráter e da honestidade.


Maninho, esse era o apelido do meu pai. Um homem da roça, negro, analfabeto e pobre. Começou a trabalhar desde criança. Por isso, não tinha tempo para estudar. Era batalhador, acordava de madrugada para começar a capinar de enxada na roça. Era o que ele mais sabia fazer na vida. Além de cortar lenha e cuidar das galinhas. As mãos calejadas por uma vida dura e a pele crespa castigada pelo forte sol nordestino.


Alimentava-se mal, pois, na maioria das vezes, passávamos fome. Não sabia se expressar corretamente, falava errado. Faltavam alguns dentes. Mas, tinha uma risada inconfundível. Era durão, mas tinha o coração de menino.


Ficava desesperado quando eu adoecia. Carregava-me no pescoço, quando eu era criança. Eu era a filha que ele mais amava. Seu maior sonho era ter um carro e vencer na vida. Não realizou nenhum dos sonhos.


Lembro-me de certa vez que ele trabalhava para um homem rígido, que pagava super mal. O sol era escaldante, ele capinava com uma camisa remendada, um chapéu de palha na cabeça e chinelos bem simplesinhos nos pés. Eu era uma doce criança que pedia ao papai do céu que aliviasse o sol, porque eu tinha pena de ver meu pai naquela situação. Sem contar a alimentação fraquíssima. Quando descobriu que estava com trombose, foi perdendo a vida aos poucos. Teve três AVCs, perdeu a coordenação motora, não reconhecia ninguém, usava fralda, alimentava-se de líquidos colocados na boca com uma colherzinha de chá. Ah, meu pai!


Foi perdendo a força de gigante, mas não passava pela minha cabeça que ele pudesse morrer. Quando ele gemia de dor, doía mais em mim do que nele. Ainda bem que, na época que ele estava doente, eu estava desempregada. E meu tempo era somente para cuidar dele.


Faltando uma semana para ele partir, foram alguns enfermeiros a nossa casa aplicar uma medicação em meu pai. Ele sorriu com um sorriso cansado e abatido. Eu nem imagiva que era a última vez que o via sorrindo. Era manhã de domingo, penúltima semana da primavera. Estava exaustíssima pela rotina que tínhamos com ele, que passou uma semana sem pregar o olho. Fui dormir na casa de uma prima, e minha mãe tinha dormido no hospital com ele, em outro estado.


O sol estava lindo, seus raios reluzentes brilhavam nas águas do Velho Chico. Eu ainda não tinha visto um dia tão atípico como aquele. Uma calma profunda invadia meu coração. Quando eu cheguei ao hospital, minha mãe falou que ele tinha ficado calmo a noite inteira. Ao ver seu semblante fragilizado pela doença e pelo cansaço de tudo que estava acontecendo, fiquei sem palavras. Eu e minha mãe demos banho nele.


Após o banho, minha mãe foi comer algo e eu fiquei no quarto sozinha com meu pai. Falava com ele e ele fazia gesto sinalizando que estava me entendendo. Dei suco na boca e ele tomou um copo inteiro, para nossa surpresa.


Passadas algumas horas, o médico perguntou o nome dele, ele não sabia mais dizer, perdeu a fala e fazia o maior esforço do mundo para respirar. Eu fazia carinho nele e pedia para se acalmar, mas ele estava sufocado, revirando os olhos, não fechava mais a mão.


Antes de os médicos o levarem para a sala vermelha, ele viu minha mãe chorando desesperadamente. Logo, ele começou a chorar também. Os médicos o puseram numa maca, ele tentou falar, fez de tudo, queria dar um recado, mas não conseguiu... Meia hora depois, saiu um enfermeiro da sala e falou: "seu pai, seu pai, seu pai, ele não resistiu". Foi um tiro no meu coração. Queria que minha vida acabasse naquele momento. Eu chorava amargamente pelo corredor do hospital.

Ver meu pai morto no necrotério foi a cena mais forte que já vivi até hoje. Era meu pai, o homem que me viu nascer, carregou-me no colo, educou-me, viu-me crescer, amou-me incansavelmente. Estava morto. E eu não podia fazer nada. Não sei como resisti. Suportei toda dor, respeitei o meu luto. Resisti a tudo por causa dele. Atualmente, tenho inúmeras conquistas, jamais imaginadas por nós. Acredito que a intercessão dele esteve presente em tudo. Um dia vamos nos encontrar na eternidade; é o que mais quero na vida. Escrevi tudo isso para dizer somente esta frase para ele: Pai, eu sou o teu SUCESSO!


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