• Jill Muricy

Uma mulher incomum nos dias de hoje

Pobreza não se define apenas pela ausência de dinheiro. A falta caráter também é pobreza. Ser financeiramente pobre não significa que você não seja rico. Rico de valores, princípios, afeto, saúde. A sociedade é cheia de gente honesta, mas esse é um valor que não tem apelo midiático. Logo, ele nem sequer é mencionado nos grandes veículos de comunicação. O bem e as boas ações das pessoas nunca são manchetes dos jornais. Lutar contra a seca, a fome e a falta de dignidade humana, por exemplo, e não se corromper nunca é mérito admirável e que, aqui, terá um espaço especialmente dedicado. Há uma mulher que, ainda nos dias de hoje, trabalha arduamente na roça, no pesado, como se fosse homem, para sustentar a casa. Sob o sol nordestino, de enxada, foice ou facão, esta nobre mulher lida com a terra.

Dona Emília, capinando de enxada, na roça


Na comunidade quilombola de Tijuaçu, norte baiano, há 370 km de Salvador, na Bahia, nasceu Emília Rodrigues, filha e neta de escravos. Fruto de uma família de 7 irmãos, ela começou a trabalhar aos 8 anos, na roça de fazendeiros, de enxada, arrancando touco para ajudar os pais a sustentarem os irmãos. Emília pouco estudou, porque tinha que trabalhar, e, naquela época, não era fácil ir à escola. O caderno e o lápis foram substituídos pela enxada. A mãe de Emília, Anísia Maria Rodrigues, hoje com 101 anos, é bisneta de Mariinha Rodrigues, uma escrava que fugiu do recôncavo baiano com duas amigas e fundou o distrito de Tijuaçu. Na época, o lugar era uma enorme fazenda chamada Lagarto.

Mulheres de Tijuaçu, dançando o tradicional Samba de Lata

Samba de Lata de Tijuaçu. A maior expressão cultural da comunidade afrodescendente. Conhecido mundialmente


Por volta de 1932, Tijuaçu era chamado de Lagarto, um lugarejo sem luz elétrica e água, marcado fortemente pela seca. Sem entretenimento no lugar, os afrodescendentes iam buscar água a 4 km de distância, na cabeça, com potes de barro e lata de querosene reaproveitada. Durante o percurso, para animar a caminhada, sempre batiam na lata e cantavam. Daí nasceu a maior expressão cultural de Tijuaçu, o Samba de Lata conhecido mundialmente.

Dona Emília, na frente de casa

Aos 12 anos, Emília começou a gostar de seu primo Rosalvo Rodrigues, um ano mais velho. Depois de 7 anos de namoro, casaram-se. A maior vontade de Emília era ser mãe. Recém-casados, foram morar em uma casa de pau e pique, sem piso. Naquela época, ainda não havia água encanada e luz elétrica na comunidade. A noite era iluminada pelo candeeiro. Meses depois, Rosalvo foi trabalhar no Paraná, para dar uma condição melhor à mulher. Tempos mais tarde, voltou e construiu uma casa de adobo ( tijolo de barro). Os tempos eram difíceis, mas eles continuavam trabalhando duramente na roça, catando mamona, quebrando licuri para vender. Rosalvo além de agricultor era padeiro, também trabalhava nas cidades vizinhas. Eles tiveram 8 filhos, mas um morreu quando bebê. Sofreram bastante para dar educação às crianças, que não tinham comida, cama e roupas suficientes. Embrulhavam-se com lençol de tecido de saco de pano. Havia apenas um para embrulhar todos os filhos. Cultivavam a terra. Quando chovia, a safra era boa. Emília sempre batalhava, vendia milho assado e acarajé na feira, uma tradição muito forte entre os quilombolas.

Dona Emília, trabalha pesado na própria roça

Mesmo diante de um cenário aparentemente sem esperança, a família não reclamava da vida e nem se revoltava com nada. Quando os filhos estavam adultos e alguns casados, Rosalvo descobriu que estava com diabetes e, consequentemente, problemas renais. Na cidade, não havia profissional e muito menos hospital que cuidasse desse tipo de doença. Emília acompanhava Rosalvo na hemodiálise em Salvador, duas vezes por semana. A viagem, longa e cansativa, deixava Rosalvo ainda mais fragilizado. Ele percorria mais de 1480 quilômetros por semana. Para facilitar a situação, Rosalvo tentou morar em Salvador com um filho, mas não se acostumou à cultura da capital e voltou para Tijuaçu. Daí começou o tratamento em Juazeiro, a 150 km de Tijuaçu . Emília o acompanhava toda vez. Rosalvo estava correspondendo bem ao tratamento, tudo ocorria como desejado. Ele tinha amigos de viagem, que deixavam as coisas mais leves. Em dezembro de 2002, em mais um dia de fazer hemodiálise, Emília não foi com ele. O carro sempre ia lotado de pacientes e amigos de Rosalvo, que estava quase curado da doença. Emília foi à roça capinar. O dia estava lindo, ouvia o canto dos pássaros e prosseguia seu serviço. No caminho para Juazeiro, na BR 407, o veículo que Rosalvo estava se envolveu em um acidente. Na hora, morreram mais de 10 pessoas. Rosalvo foi socorrido com vida e encaminhado para o hospital de Juazeiro. Por volta das 10 horas da manhã, Emília retornava para casa sem saber do acorrido. Assustou-se quando viu várias pessoas aguardando sua chegada. Eram os filhos e alguns conhecidos para contar sobre o acidente. Ao ser informada, Emília ficou desesperada e foi ao hospital com alguns filhos saber como Rosalvo estava. Até então, o estado dele era estável, ainda conversava normalmente. Mas a situação se agravou. A internação durou 19 dias. Em 11 de janeiro de 2003, fazia 40 anos de casados. Exatamente neste dia, ele morreu no hospital. Emília quase morreu junto. Chorava desesperadamente com uma dor que lhe transpassava o coração. Tinha passado a vida inteira ao lado de Rosalvo. Enfrentaram todas as dificuldades juntos, os filhos estavam criados, mas ela se encontrava sozinha, sem o grande amor de sua vida, que sempre estave ao seu lado. Emília adoeceu e ficou em cima da cama por algum tempo, sem ânimo de viver. Não conseguiu a pensão de viúva não se sabe por que até hoje. Achava que aquela dor jamais chegaria ao fim. Mas Emília deu a volta por cima e voltou à sua vida normal, inclusive para capinar na roça. Aos poucos foi superando a saudade e vencendo o luto. Procurava atingir metas para ocupar o tempo. Voltou a estudar e, anos 60 anos, concluiu o Ensino Médio. Para surpresa de todos.

Atualmente, Emília tem 74 anos, mora numa casa digna, têm alguns filhos concursados e com bons empregos. É uma mulher feliz, com um coração enorme. Superou todas as dificuldades vividas, ultrapassou os limites e venceu os problemas sociais. Tudo na vida tem uma saída. Pode passar o tempo que for, mas um dia você consegue superar todo o sofrimento. E tudo que era dor acaba se tornando motivo de alegria. Emília tem uma enorme família que a ama. É feliz e acolhida pelo seus. Aos poucos vai prosseguindo, com uma disposição de trabalhar, inconfundível.

Emília e sua mãe Anísia Maria Rodrigues, de 101 anos, que na infância foi escrava

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