• Jill Muricy

Nenhum Sofrimento Dura Para Sempre

Toda experiência que vivenciamos é um ensinamento. Cada aprendizado passa a orientar o dia a dia de nossa existência. As provações e o sofrimento são caminhos que nos levam ao autêntico crescimento necessário à vida. Não raramente, os desafios sempre nos conduzem ao amadurecimento. Não é diante de situações de alegria que amadurecemos. Se quer um alento, saiba que não há tormenta que dure para sempre. E, o que nos espera depois da presença de lágrimas em nossas vidas podem ser dias de glória. Apesar disso, há de se admitir que não somos preparados para sofrer. Embora o sofrimento nunca esteja nos nossos planos, ele é inevitável. Absolutamente ninguém na História da humanidade vive sem sofrer.

Todos nós fazemos planos, idealizamos nosso futuro, queremos tudo do nosso jeito, mas nos esquecemos que a vida na maioria das vezes não corresponde às nossas expectativas. Ter FÉ é essencial para superar conflitos existenciais. A fé não costuma perder batalha. Existem pessoas com tanta fé, que são capazes de atravessar desertos, sofrimentos, perdas, doenças, ausências, saudades, privações e, mesmo assim, continuam de pé. Não se deixam vencer por nada. Mesmo abaladas seguem seu caminho firme como uma rocha. Passar por momentos de provações e, ao final, ter a superação como resultado nos leva a crer na força do ser humano, que pode chegar aonde quiser. Um casal de namorados tinha acabado o relacionamento de pouco tempo. Dias após o término do namoro, Angela descobriu que estava grávida. E agora? Ela resolveu não procurar o ex-namorado para falar sobre a gravidez. Seguiria a vida sem contar com ele. Diante do julgamento da sociedade e o medo dos pais não aceitarem o bebê, Angela pensou em abortar a criança. Mas quando falou aos pais, que estava grávida, foi acolhida por eles, e se arrependeu de seu pensamento negativo.

Ana Priscila e a mãe no Santuário Tabor da Redenção das Famílias no Rio de Janeiro

Passados alguns meses, nasceu Ana Priscila Ribeiro, uma doce e linda menina. Ninguém poderia imaginar as surpresas que a vida lhe traria. Ana Priscila era muito amada por seus avós que a amavam como uma filha. O pai dela nunca soube de sua existência. O avô materno era o Pai que Ana Priscila tinha. Por isso, ela não sentia tanta falta da figura paterna. Membro de uma família tradicionalmente católica, Ana Priscila viveu uma infância feliz. Na adolescência dava aulas de catequese para crianças junto com sua madrinha de Crisma e um amigo padre. Se consagrou a Nossa Senhora sob o título de Mãe Rainha e Vencedora Três Vezes Admirável de Schoenstatt e antes de se casar selou uma Aliança de Amor com ela, orientada pela Senhora de Schoenstatt Lúcia. Esse título de Nossa Senhora foi dado pelo fundador do Movimento Internacional de Schoenstatt (Movimento Mariano fundado em Schoentatt, na Alemanha, em 18 de Outubro 1914), pelo Padre José Kentenich. Quando completou 15 anos, Ana e a mãe saíram da casa dos avós, foram morar de aluguel sozinhas. Angela sempre trabalhou arduamente para nada faltar à Ana Priscila. Aos 17 anos, Ana Priscila começou a namorar. Seu namorado Gerson Luiz Candido de Oliveira era 11 anos mais velho. Um rapaz de família evangélica, nascido em São Paulo, Engenheiro de Produção formado na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), que aos 18 anos mudou-se para Caieiras com os familiares. Trabalhava como supervisor de logística em uma renomada empresa. Gerson e Ana namoram por 5 anos. No dia 07 de junho de 2003, eles se casaram na Igreja de São Judas Tadeu, na cidade de Caieiras, interior de São Paulo, onde nasceu Ana Priscila e a festa foi em uma chácara na cidade de Franco da Rocha onde houve uma bênção evangélica dada pelo tio do noivo que é Pastor. Ana Priscila casou-se aos 21 anos.

Ana e Gerson no dia do casamento (07 de junho 2003)

Uma nova família estava começando a se formar. Gerson sempre incentivava Ana Priscila a fazer faculdade.

Ela prestou vestibular para Automação de Escritório e Secretariado na Faculdade de Tecnologia de São Paulo (FATEC). Passados alguns dias, Ana Priscila recebeu a feliz notícia de sua aprovação no vestibular. Era uma segunda feira-feira do mês de Julho de 2006 e imensa era a felicidade do casal pela grande notícia. À noite, Gerson comprou pão de queijo e torta para comemorar a vitória de Ana. A comemoração do jovem casal foi repleta de alegria. Eles nem imaginavam o que estava por vir, pois, Ana Priscila não sabia que aquela seria a última noite ao lado do seu amado no próprio lar. No dia seguinte ao amanhecer, Ana ainda estava deitada, quando ouviu Gerson ligar para empresa dizendo que não ia trabalhar porque não estava se sentindo bem. Ele trabalhava em Jundiaí, São Paulo e saía sempre pela manhã, bem cedo.


Ana levantou e perguntou o que Gerson tinha. Ele disse que estava com enjoo, febre e já havia vomitado. Preocupada, Ana Priscila ligou para o sogro e ambos o levaram para o Hospital Metropolitano na Lapa, em São Paulo. Gerson estava sentindo muitas dores. No caminho para o hospital, a situação ficou mais delicada e vomitou novamente. Ao chegar ao hospital foi atendido no Pronto Socorro e mais tarde internado, ficou em observação por uma semana, foi feito alguns exames de sangue e duas tomografias. Não deu nada no resultado dos exames. E Gerson continuava com os mesmos sintomas. Os médicos desconfiavam que poderia ser uma infecção de apendicite e resolveram fazer uma cirurgia. Constataram que de fato era uma infecção que já tinha atingido o fígado e não o apêndice. Após a cirurgia, Gerson foi transferido para UTI, teve retenção de líquido e ficou entubado. A situação se prolongou por uma semana. Todo dia, Ana Priscila ia visitá-lo na UTI. Como as aulas já haviam começado, ela saía da faculdade e ia direto para o hospital, sempre no mesmo horário.

Era sexta-feira, 04 de agosto de 2006,11h30 da manhã. Ana estava indo para o hospital, como de costume, e ao chegar na UTI para visitar o marido, a enfermeira pediu que aguardasse que o médico viria falar com ela. O médico deu a triste notícia da morte de Gerson. Desesperada, ela não acreditou. Foi até o quarto onde ele estava, viu todos os aparelhos desligados. Ao ver o corpo de Gerson, ela acreditava que ele estava dormindo e mandava ele acordar rápido, sem sucesso pois ele estava morto. Algum tempo depois suas cunhadas chegaram e souberam do ocorrido, Ana Priscila dizia que não era verdade. Uma jovem de 24 anos ficou viúva. A dor de ter perdido precocemente o grande amor da vida é insuportável. Não existem palavras para descrever. Eles não formaram a família que sonhavam. Ana planejava engravidar no ano que Gerson morreu. Fazia apenas 3 anos que haviam se casado. Gerson morreu aos 35 anos. Não houve diagnóstico para a doença dele. A ficha de Ana Priscila não caía sobre a morte do marido.

A mãe de Ana Priscila veio morar com ela. Ana, o tempo todo achava que Gerson voltaria a qualquer momento, vivia sem ânimo na vida e não tinha mais planos, e se fechou para possíveis novos relacionamentos.

Ana Priscila no dia da formatura, em abril de 2011

O tempo foi passando, Ana terminou a faculdade, que, na maioria das vezes, foi uma válvula de escape de sua dor, assim como as amigas que lá conheceu. Era o sonho de Gerson que Ana concluísse a graduação.

Em 2012, integrante da União das Mães de Schoenstatt, recebeu um convite para trabalhar na Jornada Mundial da Juventude (JMJ) Rio 2013, contou com o apoio de suas irmãs de curso e foi morar no Rio de Janeiro para trabalhar como Assistente no Setor de Inscrições, no Comitê Organizador Local (COL) da JMJ. Ana Priscila trabalhava com a alma, sempre dava o seu melhor. Na oportunidade, foi cumprimentada por Vossa Santidade o Papa Francisco.

Ana Priscila sendo cumprimentado por Vossa Santidade o Papa Francisco, na Jornada Mundial da Juventude (JMJ) Rio 2013

Em outubro de 2013, após o término da JMJ, Ana Priscila voltou para a casa em Caieiras. Em Março de 2014, Ana Priscila foi ser voluntária em Schoenstatt na Alemanha, um sonho que foi planejado desde que esteve pela primeira vez no Santuário em 2009 com algumas integrantes da União das Mães. Ajudava as irmãs religiosas a receberem os peregrinos para a festa do Centenário do Movimento. Na ocasião, ia traduzir a história do Movimento e do fundador, do espanhol para o português. Mas, a vida não lhe daria trégua. Identificou-se bastante com a história do Padre José Kentenich, mas claro que o sofrimento dele foi maior. O estresse acumulado do trabalho anterior contribuiu para uma etapa delicadíssima que Ana Priscila, mais uma vez, precisava superar.

Ana Priscila Em Schoenstatt, 2009 com as amigas: Candida Maria, Maria Augusta, Junice Maria, estátua do Pe. José Kentenich, Dirlane, Ir. M. Clades e Fátima Gabrielli. Integrantes da União das Mães de Schoenstatt. Na ocasião, Ana foi à Europa a passeio

Ana Priscila teve um surto nervoso. Dos 30 dias na Alemanha, 10 ficou internada e foi diagnosticada com esquizofrenia. Em terra desconhecida, longe da mãe, Ana Priscila lutava pela vida. Com pouca consciência e saúde debilitada, Ana Priscila tomava vários remédios de indicações psiquiátricas para vencer a dolorosa situação. Acompanhada de uma irmã de curso, Ana Priscila deixou a Alemanha, mas trouxe consigo uma enorme dívida com o hospital alemão.

Ana Priscila no Santuário de Schoenstatt em Querétaro, México

Chegou finalmente em casa e no seio materno, Ana, continuou o tratamento psiquiátrico por 3 anos, contou com a ajuda de amigos, familiares seus e de Gerson. Ficou acima do peso, com aparência transformada, mas com a fé inabalável. Não ousava, sequer, reclamar de alguma coisa. Atualmente, Ana Priscila curada do surto não precisa mais tomar remédio de indicações psiquiátricas . Recuperou a autoestima. É uma mulher feliz. Vive para fazer o bem e honrar a fé. Atua como professora voluntária de Inglês, no CAPS de Caieiras, incentivada por uma Assistente Social. Superou os conflitos e está sem sequelas. Mora com a mãe e cheia de esperança e fé segue nova etapa de sua vida.

A tranquilidade que ela transmite demonstra a felicidade que possui.

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