• Jill Muricy

O sofrimento é o caminho para a FELICIDADE

Não sabemos explicar a razão da dor e sofrimento, qual a sua verdadeira finalidade. Mas uma coisa é certa, as dificuldades nos deixam mais fortes. Nos reveste de coragem e fortaleza. Dá um novo sentido à nossa existência. Passar por perdas e frustrações e, mesmo assim, prosseguir na vida, são habilidades destinadas a poucos.


Os acontecimentos sempre nos pegam de surpresa, inclusive os fatos dolorosos, que parecem eternizar no tempo. Se fôssemos dar nome ao sofrimento, com certeza dariam nomes de pessoas ao qual conhecemos, que superaram as tribulações com maestria.


Dulcedete Santos Freitas, 67 anos, mora em Cariacá, no município de Senhor do Bonfim, norte baiano.


Dulce na varanda de casa


Dulce, como é chamada, não conheceu a mãe biológica. Quando nasceu, o pai a entregou a vó paterna, para ser criada por ela. Elas moravam em Salvador, capital do estado. Posteriormente, Dulce e os avós foram morar em Cariacá, para ter uma vida mais tranquila. A vó de Dulce era alcoólatra, não cuidava bem da criança, além de xingar e bater na sensível netinha.


Sua infância foi trocada pelo afazeres, começou a trabalhar muito cedo e na roça, carregando água e lenha na cabeça. Ia à escola uma vez ao mês, mesmo com todo perrengue cursou até a 8ª série.


Quando fez 12 anos, o avô morreu. Dulce foi passar um tempo com alguns parentes em Sergipe. Ao retornar a Cariacá, a vó tinha ido embora para Serrinha, uma cidade próxima a Salvador. Dulce não tinha onde morar, estava sozinha e sem teto.


Uma família ficou sensibilizada com a situação que a adolescente estava passando, e resolveu abrigá-la em casa. Mas, Dulce precisava ajudar nas despesas. Para isso ela foi trabalhar cortando sisal, ajudando a se manter. Aos 15 anos, a jovem começou a namorar, mas a família do rapaz não queria o namoro. Os dois estavam apaixonados, e resolveram fugir para São Paulo e viverem felizes. Casaram escondidos e somente depois do casamento que a família dele ficou sabendo da união do casal. Com 16 anos, Dulce se tornou mãe.


Dulce e o marido tinham uma boa convivência, eram pais de cinco filhos, lindos e saudáveis. A família dele havia aceitado a relação de ambos. Os dois trabalhavam para sustentar a casa. Tudo estava indo muito bem na medida do possível, mas a vida não daria trégua. A jovem senhora, de apenas 22 anos, iria passar pelo vale da amargura e do sofrimento, como se não bastasse a história pesada que tinha vivido no passado.


O marido de Dulce descobriu que estava com Schistosoma, em estágio avançado. Ele fez tratamento e tudo que estava ao alcance da ciência, para continuar vivo. Ainda doente o casal e os filhos voltaram a Cariacá, na esperança da recuperação. Mas, o jovem pai de família teve sérias complicações, entre elas hemorragia interna, não resistiu e morreu, com 29 anos. Deixou a viúva com 22 anos, grávida de 3 meses, e cinco filhos.

Dulce e a filha Elizangela

Dulce entrou em desespero, com uma dor profunda. O homem que ela amava, o grande amor da vida, tinha partido para nunca mais voltar. Mas, não podia desistir de viver por causa do filhos. Nasceu o bebê que estava esperando, um menino muito doente, quase morreu. Porém, vive até hoje. Quando completou oito meses que tinha perdido o marido, Dulce foi novamente visitada pela angustia de perder alguém. Dessa vez, sua filha de um ano e três meses. Um ano após a morte da garota, perdeu um filho de cinco anos.


A jovem mãe ficou louca, perdeu o chão, o ânimo, a vontade de viver. As pessoas amadas estavam partindo, em rápido espaço de tempo. Dulce achava que ia perder todos os filhos se continuasse morando em Cariacá. Por esse motivo, resolveu voltar a São Paulo e preservar a vida das quatro crianças que lhe restavam, uma meninas e três meninos.


Ao chegar na capital paulista, Dulce e os filhos foram morar na casa do padrinho do falecido marido. Conseguiu emprego como arrumadeira de hotel. Meses depois, a filha teve um problema na garganta e precisou fazer uma cirurgia, que por sinal ocorreu tudo bem. Mas, a vida ainda traria surpresas.


Dulce adoeceu gravemente, com fortes dores nas pernas, sem saber o real motivo da doença. A enfermidade durou meses. Ao sentir uma pequena melhora, no estado de saúde, pediu demissão da empresa onde trabalhava e voltou para Cariacá com os filhos. Ao chegar no interior baiano, trabalhou duramente para criar e dar dignidade a garotada.


Dulce e a neta Andreza


Conheceu um rapaz aparentemente bom, foram morar juntos. Dulce descobriu que o então marido tinha caso com a própria irmã. Ela o colocou pra fora de casa e depois descobriu que estava grávida. A manina nasceu, mas, até hoje, ele não sabe da existência da filha. Dulce criou cinco filhos sozinha, deu estudo a todos eles. Atualmente, são pais e mães de família, com empregos dignos; enchendo de orgulho a mulher que deu tudo pela criação deles.


Dulce com amigos, filhos e netos


A guerreira Dulce tem uma casa digna. É rodeada pela família que tanto defendeu. Mora com uma neta e um bisneto. Não guarda magoa ou rancor pelas situações vividas. Tem um coração imenso e generoso com quem precisa de ajuda. É a pessoa mais FELIZ do MUNDO. Se fosse preciso faria tudo de novo, para ter o que tem hoje: UMA FAMÍLIA.



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