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  • Jill Muricy

Lute Até que o Beija-flor se Transforme em Onça

Há uma sabedoria insondável por trás de todo acontecimento, os seres humanos são regidos pelo designío do Autor da existência.

Silvia Waiãpi - orgulho do Brasil/Foto: arquivo pessoal

Não importa se é na cidade ou na floresta, o que vai prevalecer é a vontade do Criador!

A Infância


A guerreira Jawaimã, de língua Tupi, nome de origem da Deputada Federal Silvia Nobre, nasceu na aldeia Waiãpi, localizada no município Pedra Branca do Amapari, no Amapá, em uma família composta por 14 irmãos.


Nobre, aos quatro aninhos sofreu um acidente na aldeia onde morava, foi transpassada por um pedaço de madeira na perna direita. Por causa disso, precisou ir até a cidade para um tratamento especializado no Hospital.


Ao acordar ainda internada, Jawaimã ficou encantada por aquele lugar, pois era o mais lindo e precioso que havia visto - nessa época, a frágil índia nem imaginava quem ela se tornaria.


Depois do acidente, a Waiãpi, foi adotada por uma família e continuou morando na cidade de Macapá. O pai adotivo era professor e alfabetizava a menina. Quando passou a frequentar a escola, chamava atenção das outras crianças por ser indígena.


Naquele período o ensino de moral e cívica era muito forte. Todos ficavam em fila para cantar o Hino Nacional, mas, somente as crianças brancas podiam hastear a bandeira do Brasil.

A pequena Silvia passou a infância inteira sonhando em ter esse direito. Algo simples, que representava muito para ela. Amava ouvir e cantar o Hino Pátrio. E, já cultuava a bandeira brasileira como maior símbolo de identidade, queria um dia hastear a bandeira e ser orgulho para o Brasil.


A criança possuía uma sede incontrolável pelo conhecimento, chamava atenção pela fascinante oratória, desinibida e determinada, não abria mão da verdade. A bela menina já demonstrava o caminho que no futuro seguiria.


A VIDA no Rio de Janeiro


Aos 13 anos, tornou-se mãe, alimentando o sonho de mudar a própria história e ser alguém na vida. A brava Waiãpi decidiu de vez, deixar sua cidade para conquistar o mundo do homem branco. Com isso foi embora da própria terra, e acabou chegando ao Rio de Janeiro, em um futuro bastante incerto e sem conhecer ninguém.

Jawaimã da tribo Waiãpi/Foro: arquivo pessoal


Na capital fluminense, foi moradora de rua. Além da fome, o sofrimento era o fiel companheiro. A solidão nas ruas cariocas era violenta. Frio, calor e a ausência da família, pareciam se perpetuar, mas na vida tudo tem um fim.

A mulher da floresta quase esqueceu do poder encantado de Yacamim (ave mágica, crença da cultura indígena).


Como o principal objetivo da índia era estudar, ela pegava livros e revistas do lixo, lia todos e depois os vendia e com isso ganhava um trocado. Além disso, Silvia Waiãpi, possuía uma pedra que havia encontrado no meio do mundo, onde passa a linha do Equador.


Acreditava-se que aquele pequeno pedaço de rocha era mágico, a menina que morava rua vendeu o objeto com a promessa de que ele mudaria a vida de quem o tivesse. Com o dinheiro da venda, a moça comeu por duas semanas.

Esse fato mudou a vida da amapaense que passou a "sorte" para outra pessoa e naturalmente tudo a sua volta começaria a mudar para melhor!

A então militar conheceu um camelô, a sobrinha dele alugou um quarto para Silvia morar, e para custear a despesa a jovem precisava arrumar um emprego.


Apareceu a oportunidade para vender livros novos no ciclo do livro. A moça fascinada por literatura, certo dia, bateu na porta da extinta TV Manchete, emissora onde acabou conhecendo poetas e escritores que a convidaram para uma reunião no teatro Villa Lobos.


O cenário estava mudando, as flores começavam a florescer!

Daí aprendeu com eles a declamar poesias e interpretar contos. Foi incentivada a estudar artes e após se formar arrumou emprego na Rede Globo, como aderecista. Posteriormente, como preparadora de elenco e atriz. Atuou na minissérie "A Muralha" e na novela "Uga Uga" interpretou a personagem "Crococá". Também fez parte da companhia de teatro do Pedro Bial.

Em noite que poderia ser comum, após chegar do trabalho, tomou um café e perdeu o sono, por causa disso, saiu para caminhar na rua e foi estuprada. Nobre culpou as próprias pernas por não saber correr.


Depois desse episódio, se dedicou inteiramente a corrida, e dois meses depois tornou-se atleta profissional. Integrou a equipe profissional do Vasco da Gama. Em meio a tantas competições, ganhou uma bolsa de estudos para fisioterapia.


O sol que aparentemente ficou escondido, começou a brilhar com toda intensidade!

Tempos depois, a então parlamentar estava bem na vida pessoal, finalmente havia realizado o sonho de ter uma família e ser dona de casa. Mas o cenário mudaria logo em seguida.

Quando na sexta-feira, 30 de março de 2007, no bairro Ilha do Governador no Rio de Janeiro, o Sargento Sérgio Luiz Lopes, de 36 anos, do Corpo de Fuzileiros Navais, foi sequestrado e morto, enquanto estacionava o carro na garagem de casa. Lopes era o marido de Silvia, e também atleta profissional, havia sido campeão Sul-americano e estava classificado para os jogos mundiais na Itália, viajaria para a competição na semana seguinte ao assassinato.

Silvia perdeu violentamente o chão e engoliu a dor, não pedia chorar nem demonstrar fragilidade para os filhos, para não os destruir, e mais uma vez a fome a fez companhia. Nobre foi fiel a sua promessa de que custasse o que custasse o Brasil sentiria orgulho dela. Passou os anos seguintes dedicando-se incondicionalmente aos estudos.



A SUPERAÇÃO, a Grande Virada

Três anos após ficar viúva, Silvia Nobre Waiãpi passou para Marinha e para o Exército Brasileiro e se tornou a primeira mulher indígena a ser Oficial das Forças Armadas Brasileiras.


Foram 30 anos para realizar o sonho: hasteou a bandeira do Brasil na Abertura dos Jogos Mundiais Militares, na cidade do Rio de Janeiro.


A voz da Floresta - Filha de tupã, é segundo tenente fisioterapeuta do Exército Brasileiro. Tem formação em Política e Estratégia pela Escola Superior de Guerra (ESG).


E em Liderança Estratégica pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército Brasileiro (ECEME). Possui Certificado Especial de Identificação e Produção (CEIP) em Salvaguarda e Segurança pela Organização das Nações Unidas (ONU).


É Especialista em Terapia Intensiva, em Gestão Financeira e Orçamentária em Organização Pública, e em Anatomia e Biomecânica.


Está fazendo Mestrado em Saúde Pública na Universidade Ibirapuera (UNIB), e finalizando uma Especialização em Segurança Pública e Inteligência pela União Brasileira de Faculdades (UNIBF).


A militar fundou o primeiro serviço de emergência em fisioterapia do Exército Brasileiro, no qual a maior característica é a formação em transporte de resgate Aeromédico. Foi o primeiro serviço do Brasil que um hospital instituiu em uma emergência.


Em 2016, tornou-se a chefe de Medicina Física e Reabilitação do Hospital Central do Exército, no Rio de Janeiro, o maior e mais antigo Hospital Militar da América Latina.


A brava mulher fez História na chefia, quando em março de 2017, formou a primeira turma da América Latina de Fisioterapeutas Especialistas na área de Defesa Química, Biológica, Radiológica e Nuclear.


No fim de 2018, integrou a equipe de transição do governo Bolsonaro como Secretária Especial da Saúde Indígena, no cargo sofreu duas tentativas de assassinatos, mas escapou de ambas sem sequela.


A VIDA nos DIAS Atuais


Silvia Nobre Waiãpi tem 47 anos, é mãe de três filhos, ambos com cidadania portuguesa. Um rapaz, biomédico que mora em Portugal, e duas moças que moram no Rio de Janeiro. Tem uma neta que mora nos Estados Unidos.

Em outubro de 2022, foi eleita Deputada Federal pelo Amapá, pelo Partido Liberal (PL). Foi a primeira vez que a filha do Norte concorreu a eleição. É a primeira mulher indígena conservadora e de direita, que foi elegida e erguida por Deus para defender a sua Nação e lutar pela Liberdade do seu Povo.

Deputada Federal Silvia Waiãpi - primeira mulher indígena conservadora e de direita/Foto: arquivo pessoal


Como parlamentar se divide entre o Rio de Janeiro, Brasília e Macapá. A Waiãpi teve experiências desastrosas, muitos fins e recomeços, mas nada a impediu que chegasse ao pódio, sem abrir mão da própria essência.


Pois, um povo que não preserva sua identidade e nem guarda a memória de seus mortos, ele não sabe de onde veio e não sabe para onde vai.



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