• Jill Muricy

O Ex-morador de Rua que se Tornou Escritor

Pessoas extraordinárias nascem em lugares simples, o potencial não depende das circunstâncias para existir na vida de alguém, ele vai além das estruturas que o cercam. A capacidade que um ser humano possui de vencer, não está na condição social ou intelectual, mas na determinação de mudar a própria história e ser exemplo de superação para a humanidade.

Ex-morador de rua que se tornou escritor, Leo Motta /Foto: arquivo pessoal

E, ao se tornar um notável, muitos seguirão aquela luz que surgiu das trevas. Pois não haveria qualquer possibilidade que um dia ela pudesse existir.

A Infância


No outono de 1981, na comunidade da Cidade Alta, região metropolitana da cidade do Rio de Janeiro, nasceu um menino muito frágil, Leo Motta, aquele que se levantaria das cinzas e escreveria uma nova história nos capítulos da própria existência.


Logo após o nascimento, Leo teve uma forte pneumonia, ficou internado os seis primeiros meses de vida, ao sair do hospital foi morar com os avós paternos, a própria mãe possuía sete filhos, e tinha problemas de alcoolismo, já o pai havia sumido.


Mesmo assim o garoto teve uma infância maravilhosa, brincou bastante de pique esconde, jogo de botão, futebol, pipa... embora, sendo uma criança pobre da comunidade não faltou nada, inclusive o amor dos avós.


A adolescência do garoto Motta foi muito conturbada, aos 15 anos morava com uma mulher e teve o primeiro filho. Com a mesma idade na escola pública onde estudava começou a fumar maconha, depois entrou para o tráfico de drogas no qual permaneceu até os 19 anos.


Essa experiência com as drogas seria o princípio de uma série de problemas sociais e emocionais. Sem contar o vazio existencial que o perseguia incessantemente, mas não existe caso irresolvível, há uma solução para tudo na vida.


O maior sonho do menino Leo era ser jogador de futebol, chegou até treinar em clubes, mas as drogas não o deixaram ir além para conquistar esse objetivo.


A vida Adulta


Quando iniciou a vida adulta tudo ao redor do futuro escritor estava complicado, porém, ele não imaginava que ia passar por uma perda irreparável.


Aos 21 anos era pai de dois filhos, de mães diferentes. Ao terminar a terceira relação, a ex-namorada não aceitou o fim do relacionamento, e assassinou o bebê do casal de cinco meses de vida.


A dor que visitou o coração do jovem pai era indescritível, um conjunto de aflições, ao mesmo tempo que sofria pela morte do menino, Leo Motta era alcoólatra e dependente químico, totalmente viciado no craque.


Tempos depois, recém saído do tráfico de drogas, estava sem formação profissional e vivendo um verdadeiro caos que parecia não ter fim. Mas na verdade tudo tem um fim, até o fundo do poço, e quando alguém estar lá a única saída é para cima.


O tempo passava, mas as coisas continuavam do mesmo jeito, a vida do jovem Leo não percorria novos horizontes! Muitas vezes é necessário experimentar as trevas para valorizar a luz.

Ida para as Ruas

Leo Motta teve muitos relacionamentos, mas nada preenchia o vazio do coração, até porque não dá para preencher vazio com vazio, muitas vezes aquilo que mais procuramos está dentro de nós, mas não encontramos porque o buscamos no lugar errado.


Afundado no álcool, Motta foi um pai ausente, o ofício da paternidade não é uma tarefa fácil, ele vivia caído na porta do bar, até que certo dia, após uma overdose na frente da própria mãe, ele decidiu "sofrer" sozinho com aquela situação e foi morar nas ruas do Rio de janeiro.


A cada dia o novo morador de rua dormia em um lugar diferente nas calçadas da cidade maravilhosa, sob chuva e sol, frio e calor. A fome sempre se fizera presente, dificilmente escovava os dentes e tomava banho. Certa vez, foi pedir um copo de água em um restaurante e o garçom deu-lhe um copo de água com sal.


Pessoas inspiradoras vencem todos os desafios com maestria, não seria água salgada que destruiria a força daquele sonhador, o líquido era pouco demais para isso. Após seis meses perambulando pelas ruas da capital fluminense, Leo Motta estava transfigurado pelo sofrimento.

Por incrível que pareça tudo tem um porquê, toda situação ainda que seja muito dolorosa vem para ensinar lições que a felicidade não conseguiria esclarecer.


Por cada hora escura, longos dias com luz intensa, Leo Motta estava ferido emocionalmente, com aparência fortemente abalada, despido de si mesmo, encontrou um oásis no deserto: foi acolhido pela Associação Solidária Amigos de Betânia (católica), uma instituição voltada para dependentes químicos e moradores de rua, essa foi a única porta aberta que encontrou, quando tudo na vida havia se fechado.


Em 20 de dezembro de 2016, ao chegar no portão da casa de acolhimento, antes de perguntarem o nome dele, foi recebido com um forte abraço que o fez sentir-se amado, descalço, com 1,88 de altura, pesava 60 quilos, estava há 20 dias sem tomar banho. Acolher aquele rapaz que dormia ao relento era o mais importante que olhar a sua aparência.


Daquele dia em diante o então ex-morador de rua começou a escrever uma nova história nos capítulos da própria jornada. Motta, vários meses internando na Associação, libertou- se completamente do álcool e das drogas, surgia uma nova vida para o homem tão sofrido.

A SUPERAÇÃO


Após sete meses na instituição de reabilitação, Leo Motta se tornou um novo homem, diante de si mesmo e da sociedade, ele abandonou 20 anos de escravidão no alcoolismo e nas drogas.


Arrumou emprego de lavador de pratos, e foi morar com uma tia, em uma das vezes indo para o trabalho, conheceu uma seguidora da sua rede social que o incentivou escrever um livro para contar a experiência de viver nas ruas.

Escritor Leo Motta, exemplo de SUPERAÇÃO/Foto: Marcos Souza



O futuro escritor aceitou o desafio, e em 2019 na Bienal Internacional do Livro, no Rio de Janeiro, lançou o primeiro livro da sua trilogia "Há Vida Depois das Marquises". Para que o lançamento fosse possível, foi realizada uma vaquinha virtual, que ultrapassou o valor sugerido, houve até doação em dólar.


O escritor Leo Motta foi destaque na Bienal e na mídia do Brasil e de outros países do mundo! E dando seguimento a sua obra, em 2021, no Museu do Amanhã, também no Rio, foi lançado o segundo livro " Há Vida Depois das Marquises-Sonhos".


E, em dezembro deste ano (2022), será lançado o "Há Vida Depois das Marquises do Outro Lado da Rua", para fechar a trilogia e se consagrar como o primeiro ex-morador de rua a ser autor de uma trilogia literária no Brasil.


O SUCESSO escolheu Leo Motta para ser o exemplo que todos precisam conhecer, o ex-lavador de pratos encontrou o grande amor da sua vida: Ceyssa, com quem tem uma filha, Esther. Ao todo ele tem cinco filhos. Também conquistou a casa própria e concluiu o Ensino Médio, o sobrevivente das ruas tem um lar, construiu uma linda família, é um homem feliz e realizado. Quem diria que ele chegaria tão longe?


A VIDA nos Dias Atuais


Atualmente, aos 40 anos, o ex-morador de rua é assessor da Secretaria de Assistência Social da Prefeitura do Rio de Janeiro, idealizador do projeto social "A Rua é a Casa de Muitos não devia ser de Ninguém", que além de distribuição de alimentos, o projeto promove desfile de moda e literatura na rua.


Além de escritor, palestrante motivacional, modelo, o ex- dependente químico também é conselheiro em dependência química. Ajuda constantemente a população de rua. Leo Motta terá seu primeiro livro cotado em uma peça de teatro, ele sonha que no futuro sua história de superação possa chegar ao cinema.


Leo é um homem simples, de sorriso vasto, atencioso com todos ao seu redor, não carrega magoa sem ressentimento diante de tudo que aconteceu, ele e a própria mãe se reconciliaram, sente enorme orgulho em dizer que conheceu o pai aos 38 anos, em uma fila de autógrafos de um de seus livros.

Família Motta: Ceyssa (esposa), Leo, a pequena Esther no colo do irmão Ariel e Poliana/Foto: arquivo pessoal


O potencial que existia dentro deste grande homem não adoeceu com os acontecimentos sombrios, potencial nunca adoece! Ele encontrou a felicidade dentro de si mesmo. Há cinco anos, não usar drogas e nem bebe bebida alcoólica.


Cada ser humano carregar dentro de si a capacidade de mudar a própria história e ser exemplo de SUPERAÇÃO para a humanidade.


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