• Jill Muricy

O Jogo da VIDA

Às vezes, os acontecimentos da vida parecem ser um jogo, porque existem no decorrer da caminhada existencial ganhos e perdas. Mas na verdade vida não é um jogo, e sim um desígnio do autor do tempo.

Cleisson um exemplo de SUPERAÇÃO/Foto: arquivo pessoal


Tudo concorre para o nosso bem, nem sempre as situações impetuosas vêm para nos desmotivar, mas para testar a profundeza das nossas raízes. E com isso fazer de nós pessoas extraordinárias.


Esperança, garra, superação fazem parte do cotidiano de quem luta por uma realidade melhor para si mesmo e para os outros. São poucas pessoas que sabem disso, mas o segredo da plena realização pessoal é ajudar quem precisa.


A ESSÊNCIA


No bairro da Pavuna, no Rio de Janeiro, nasceu Cleisson Assumpção, um menino irradiante, de família simples, mas rica de valores. Com um ano de vida ele e a família mudaram-se para outro bairro da zona norte da cidade, Rocha Miranda, no qual reside até hoje.


Cleisson teve uma infância maravilhosa, brincou no quintal cheio de árvores frutíferas, e algumas aves, como galinhas e patos. Em uma época muito divertida, e o maior sonho dele era ser jogador de futebol. Ele não conseguiu, mas ajudou muitos a conseguirem.


A adolescência passou ao lado dos amigos de infância, os quais são grandes amigos até hoje. Aos 17 anos, começou a viver seu primeiro grande desafio, a mãe dele teve um Acidente Vascular Cerebral (AVC), com a doença, ela ficou com o lado direito do corpo paralisado, por causa disso, ela precisou ficar internada por três meses.


Daí o carioca passou a cuidar da casa e principalmente da mãe, pois o seu pai e o irmão mais velho trabalhavam fora o dia inteiro. Com isso, Cleisson ficou com a responsabilidade de fazer a comida e acompanhar sua genitora na fisioterapia, pois ela não tinha força para subir no ônibus, era preciso o filho pegá-la no colo para colocá-la dentro do transporte.


Esta realidade durou até Cleisson completar 22 anos, idade em que arrumou o primeiro emprego, e a senhora passou a ser acompanhada por uma empregada. Em 1997, o pai do rapaz faleceu de câncer, e em 2003, a mãe dele faleceu de infarto fulminante.


As Surpresas Inevitáveis


A vida andava com seu percurso natural, as coisas encontravam-se cada uma no seu lugar, tudo estava equilibrado, mas do nada tudo acontece. Em novembro de 2014, apareceu um caroço no rosto de Cleisson, parecia uma acne, que inchou muito. Daí ele foi em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA).


Ao ser atendido, a médica disse que poderia ser uma celulite facial, e perguntou se ele estava sentindo muito cansaço, porque as plaquetas dele estavam muito baixas.


Ele foi liberado, mas ficou de retornar em dois dias para repetir o exame. Ao retornar para revisão, as plaquetas mantinham-se mais baixas do que na primeira vez, foi usada pelo plantonista a hipótese de ser uma dengue.


Dois dias após o segundo atendimento, as plaquetas continuavam baixando. A médica perguntou se Cleisson estava com algum sangramento, pois os sintomas eram de dengue hemorrágica. Então, se acontecesse algo desse tipo era para ele correr para o hospital imediatamente.


Na segunda-feira, dia 10 de novembro de 2014, no café da manhã, Cleisson tomou um suco de beterraba com laranja, após o almoço foi ao banheiro e evacuou vermelho, mas não lembrou que havia tomado o suco, daí ele correu para UPA achando que estava com um sangramento.


Chegando à unidade, a médica plantonista era uma hematologista pediatra, que ao ver os exames de Cleisson, disse que ele precisava passar por hematologista com urgência (ela sabia que ele estava com câncer, mas não disse nada).


No dia seguinte, na terça-feira, dia 11 de novembro, Cleisson foi ao hospital, mas não foi atendido, o medico deu o encaminhamento para ele ir em outra casa de saúde com mais estruturas para a enfermidade dele. Ao chegar no itinerário, Assumpção entrou pela emergência, após exames, foi diagnosticado com Leucemia Mieloide Aguda (LMA), câncer no sangue, o tipo mais agressivo da doença.


O médico explicou a gravidade da situação, falou que de início o primeiro bloco de internação seria de 30 dias. Mas, Cleisson ainda não tinha dimensão do que estava acontecendo. Na época ele morava sozinho e falou ao doutor: ”não, eu não posso ficar internado, preciso trabalhar para pagar minhas contas”.


Mesmo argumentando com o médico, o rapaz ficou internado e no decorrer dos dias passaria por cinco sessões de quimioterapia. Após o período estabelecido pelo especialista, Cleisson teve alta da primeira etapa da batalha contra a doença, ele foi para casa muito debilitado, vomitando bastante, e com o cabelo caindo.


Tudo estava turvo, o sol por muito tempo havia desaparecido, mas ele continuava brilhando além das nuvens, só não era possível vê-lo naquele momento. Mas a intensidade da luz voltaria para iluminar o escuro.

Para Cleisson o consolo na angustia vinha por meio dos amigos, que fizeram correntes de oração (ela vence todas as batalhas) pela saúde dele. Ao pensar nos três filhos, ficava fortalecido para lutar. Às vezes, em dia de visita no hospital, eram tantos amigos, que nem todos conseguiam vir o paciente, eram muitos e excedia o horário visitas.


Após ter alta hospitalar do primeiro bloco de quimioterapia, Cleisson foi para a casa das tias dele em Miguel Pereira, elas cuidavam muito bem do sobrinho, davam banho nele e trocava a fralda, o jovem tinha muita dificuldade de andar.


No segundo bloco de quimioterapia, Cleisson estava na cadeira de rodas, com uma forte diarreia, ficou com dieta zero, e por cinco dias sem beber água, para saciar a sede era preciso colocar uma gaze molhada nos lábios. Nesse mesmo período internado teve assepssemia, uma infecção generalizada no sangue, com 80% de chance de ir a óbito. Por causa disso ficou entubado por 14 dias.

Cleisson entubado no maior desafio da VIDA/Foto: arquivo pessoal



A SUPERAÇÃO Sobre o Câncer


Acordou do coma dia 15 de fevereiro de 2015. Estavam no quarto as tias e Aline namorada dele, atual mulher. Ele começou a chorar incontrolavelmente, mas explicaram o que havia acontecido.


O guerreiro se encontrara enfraquecido, muito abaixo do peso, e a frágil saúde debilitadíssima, não havia possibilidade de continuar a quimioterapia, por isso o médico o mandou para casa para ganhar peso, e depois continuar com o tratamento.

Ao retornar para a consulta no período estabelecido pelo especialista, Cleisson refez todos os exames, para continuar a luta contra a doença.


Após os ventos contrários da vida, o médico chegou para o paciente e falou que não sabia o que havia acontecido, mas a medula óssea estava produzindo células boas e que não precisava do transplante e nem prosseguir com as outras sessões de quimioterapia. Porém, ele não recebeu a alta hospitalar definitiva, todo mês precisava ir fazer exames e consultas. No primeiro ano, exame e consulta mensal, depois a cada três meses, depois seis meses, e agora é anualmente. O câncer foi embora sem deixar vestígios!


A COVID-19


Mais uma vez o mês de novembro veio com uma surpresa, que foi superada com muito sucesso. Dessa vez, de 2020, Cleisson começou a sentir os sintomas do vírus chinês, febre, dor e moleza no corpo, sem aguentar a levantar da cama. Foi ao hospital e lá foi diagnosticado com COVID-19. Ficou internado, já com 50% dos pulmões comprometidos. Com a respiração muito ruim, ele teve mais medo do vírus do que do câncer, pois quando teve COVID não conseguia nem levantar da cama que faltava respiração. Recebeu alta no dia 30 de novembro, ainda muito debilitado, mas foi se recuperando em casa. Está curado sem sequela!

Cleisson lutando contra a COVID-19/Foto: arquivo pessoal


O Projeto Social


Cleisson não realizou o sonho de ser jogador de futebol, mas ajudou outras pessoas a realizarem o seu sonho. Por isso ele passou a dar aula de futebol para as crianças carentes da Comunidade do Faz Quem Quer, na região metropolitana do Rio, onde criou o projeto social “Bom de Bola faz Quem Quer”. Ainda na década de 90.


Ele usa o esporte como motivação para a criançada não entrar no mundo do crime. Inclusive o projeto já relevou grandes talentos do futebol como: Antonio Carlos, zagueiro do Botafogo e Diego Mauricio, atacante do flamengo.


São os jogadores Maicon Thiago do Grêmio e Antonio Carlos, que ajudam o projeto na manutenção do campo e com o lanche da garotada, que atualmente tem a participação 108 crianças, que lutam para um dia ser um craque de futebol.


Cleisson sonha em transformar o projeto social em uma Organização não Governamental (ONG). Em 2016, ao fazer 50 anos, ele fez uma festa de aniversário e pediu aos convidados que levassem brinquedos, o pedido dele foi prontamente atendido.


No Natal daquele ano, as crianças da zona rural da região, foram surpreendidas com lindos presentes, aquela data tão especial foi inesquecível para o guerreiro professor.

Projeto Social Bom de Bola faz Quem Quer/Foto: arquivo pessoal


E a grande ação social não parou por aí, Cleisson já distribuiu cestas básicas para as famílias, e na Páscoa de 2020, deu uma caixa de chocolate para cada criança.


A VIDA Atualmente


Depois da tempestade vem a calmaria, e a paz reina definitivamente. Cleisson não tem mais doença nenhuma! Venceu o câncer e a COVID-19. Ele leva uma vida tranquila ao lado da família. Aos 54 anos, é motorista particular e está casado com Aline, há dez anos, no passado ela foi aluna dele. A esposa se manteve firme ao lado do marido quando ele lutava para viver. Ela pediu demissão do emprego para cuidar do homem que ama, ambos formam um belíssimo casal.

Cleisson e Aline, um casal que se SUPEROU junto/Foto: arquivo pessoal



A jornada existencial segue seu percurso e, Cleisson ainda tem alguns sonhos para realizar: ver os filhos formados e conquistar a casa própria. Enquanto isso, vai colhendo os frutos da superação e semeando esperança por onde passa.

Nossos dias não são feitos apenas de sofrimento. Sim, a dor existe, mas a alegria é real, concreta e inquestionável.



Destaque
Tags