O Recomeço de Um Pai
- Jill Muricy

- 9 de ago.
- 8 min de leitura
Atualizado: 10 de ago.
Tudo andava cotidianamente dentro dos padrões da normalidade, o Sol de luz intensa e reluzente, aquecia as flores daquela primavera.

Regis Cardoso - O Pai Vence-dor, com os Cães Fumaça e Tina/Foto: arquivo pessoal
E como era a estação das flores, o cheiro de rosas perfumava todo o ambiente em que elas estavam. Elas eram belas, delicadas, femininas, cristãs, mãe e filhas. Mas as preciosas flores foram ceifadas violentamente, na madrugada de uma sexta-feira inesquecível.
Aconteça o que acontecer as belas flores continuarão exalando o intenso perfume de onde estão, mesmo que ninguém veja, elas continuam enfeitando jardim da eternidade.
A Vida Desde a Infância
O caminhoneiro Regivaldo Batista Cardoso, o Regis, de 48 anos, nasceu em Diamante do Norte, Paraná. Filho de Ciro Cardoso e Antonia Batista, que eram produtores de café. Entre tantas lembranças boas na própria trajetória, está a infância inesquecível no sítio onde morava com a família.
Na nobre roça a qual marcava a própria existência com ingênua naturalidade, ele acordava ao som do canto dos pássaros, juntamente com os cinco irmãos, brincavam com os animais a céu aberto. Corriam pelos caminhos infinitos daquela redondeza. Cenários assim, têm obrigação de formar pessoas fortes diante de acontecimentos impostos pelas circunstâncias.
Desde menino, aos sete anos, o paranaense sonhava em ser motorista de caminhão. Entre as tarefas do dia a dia, tinha a missão de espalhar o café colhido na roça dos pais, no terreiro perto de casa para secar durante o dia, e juntar a noite. O garoto fazia isso em forma de diversão - e para completar a atividade do pequeno trabalhador, ele também passava o rodo para auxiliar na secagem dos frutos.
Após a secagem, descascava e ensacava a futura bebida. Ao terminar o processo, o caminhão vinha da cidade pegar os grãos para levar à fábrica. Ele ficava encantado com o que via. Enquanto o veículo era carregado com o café, ele aproveitava para subir e brincar no interior do automóvel.
Uma infância perfeita, onde brincar era fundamental. E viver era essencial. Ele possuía muitos amiguinhos que também não anulavam ser criança. Na adolescência, começou a trabalhar aos 13 anos. Nessa época, a família Batista morava na cidade de Marechal Cândido Rondon, também no paranaense.
Onde os pais de Regis trabalhavam como boias-frias, e ele os acompanhava nas atividades para catar algodão, milho, soja... Apesar da rotina de trabalho, o jovem sempre estudou.
Ciro e Antonia faziam questão que Regis e os irmãos estudassem. Com 15 anos, trabalhou em uma autoescola na cidade. O adolescente amava futebol, por vezes, matava aula para jogar bola com os amigos. A adolescência do paranaense foi maravilhosa, porque aprendeu o que de fato é a vida e a profundidade da essência raiz.
A Fase Adulta
Na fase adulta, a vida não o causou nenhum espanto, tinha firmeza para enfrentar os desafios. No início de 2001, aos 22 anos, mudou-se para Tangará da Serra, Mato Grosso, foi morar com a tia. Tempo em que, trabalhava com caminhão, esporadicamente.
Naquele ano, viajava com amigos caminhoneiros, algumas vezes em cima de carga, para aprender a descarregar a bagagem, e na oportunidade conhecer São Paulo, pois as viagens para transportar mercadorias, na grande maioria era para o estado paulista. Após meses de experiência, iniciou trabalho com caminhão, em uma grande empresa a nível nacional, em Mato Grosso.
No fim de 2001, retornou a Marechal Cândido Rondon, no Paraná a trabalho com carreta, pela primeira vez. Já em terras paraenses, conheceu a Cleci Calvi, em 2002, sua futura mulher e mãe de suas três filhas. Os dois se relacionavam como amigos, se encontravam, conversavam, mas não havia um relacionamento firmado.
Mas em um desses encontros, Cleci engravidou da primeira filha do casal, Miliane. E mesmo assim nenhum compromisso foi sugerido pelo rapaz. Regis não queria casar, mas assumiu a criança.
O tempo como de costume passou, e com isso colocou cada coisa em seu devido lugar.
Depois de alguns anos sem contato, certa vez, em 2009, quando Miliane Calvi estava com cinco anos, foi levada por Cleci ao Paraná para conhecer a avó paterna, Antonia. Daí os pais da menina decidiram assumir um relacionamento. Eles foram para Sorriso, no Mato Grosso, cidade onde a mãe da criança morava. Nessa época, Regis estava desempregado, o que incentivou a mudar de cidade para conseguir um emprego.
A princípio, foram morar na casa de Sueli Calvi, mãe de Cleci. Posteriormente, os três mudaram-se para outra residência, para construir um lar.
O jovem casal estava decidido a formar uma família, mesmo depois de tudo que aconteceu, Regis lamenta que no passado, foi um homem imaturo como pai, no início do relacionamento. Quando Cleci disse que estava grávida, ele ficou atordoado, falou que assumia a menina, mas não queria casar. Deixou a profissão em primeiro lugar. Queria viajar, conhecer o Brasil... mas ainda bem que deu tempo de consertar as coisas.
Quando o relacionamento de Regis e Cleci estava firme, a família cresceu. Vieram mais duas meninas: Manuela Calvi, e por último, Melissa Calvi.

A Família Calvi Cardoso - Miliane, Cleci, Manuela, Melissa e Regis/Foto: arquivo pessoal
Perdas Irreparáveis - O Sofrimento Vem Sem Avisar
Em 24 de novembro de 2023, uma sexta-feira, Regis estava a trabalho na cidade de Cascavel no Paraná. Ia para São Francisco do Sul, em Santa Catarina. Com o caminhão carregado de soja.
Havia carregado a mercadoria em Toledo no mesmo estado. Naquele dia, ele havia conversado com a esposa por volta das 16h00. E naquele mesmo dia, tudo mudaria violentamente na vida do pai de família.
Antes de chegar na cidade de Curitiba, tinha muita neblina pelo caminho, então parou o caminhão para dormir em cima da serra, por volta da meia noite.
Entrou em contato com a amada, mas ela não respondeu. Por ser tarde da noite, o marido pensou que a mulher estivesse dormindo. Mas o pior já havia acontecido.
No sábado pela manhã, dia 25, antes do café da manhã, Regis mais uma vez, entrou em contato com Cleci, mas não obteve resposta. Chegou ao destino por volta do meio dia, mandou mensagem mais uma vez e nada de ela responder. Na noite de sábado, descarregou o caminhão e voltou para Cascavel.
No domingo à noite, o silêncio de Cleci imperava nas mensagens enviadas por Régis, que chegou até cogitar se ela estivesse brava com ele, por estar demorando para voltar pra casa. Ele estava preocupado, entrou em contato as filhas, e nenhuma resposta. O silêncio era o único que falava.
Mandou áudio a um amigo também caminhoneiro, que morava em Sorriso, mas o rapaz não estava na cidade (era para ele ir até a residência dos Cardoso saber se estava tudo bem). As horas passavam, mas a intensidade da preocupação não diminuía.
Sendo assim, ligou para a polícia que foi até a residência do casal, constatou que o ar-condicionado estava ligado, aparentemente nada fugia dos padrões da normalidade. O carro estava na garagem, e os cachorros bem ativos. Não perceberam nada incomum no cenário o qual aconteceu um dos piores crimes desta Nação.
Diante de tanto silêncio, Regis resolveu esperar até a segunda-feira, pois toda vez, antes de ir à escola, a filha Manuela mandava mensagem para o pai. Na esperança que esse fato acontecesse, ele aguardou ansiosamente. Ainda no domingo à noite, ligou várias vezes para Cleci, mas não foi atendido.
Na segunda-feira, dia 27 de novembro de 2023, Manuela não mandou mensagem dizendo que ia para escola, como de costume. A essa altura, bastante preocupado, o pai ligou para a professora da garota que afirmou que nenhuma das três meninas estava na escola.
Regis ficou louco - a professora perguntou o que estava acontecendo, ele disse que algo estranho estava acontecendo, só não sabia o que era.
Nesse momento estarrecedor, o caminhoneiro ligou para a sogra, Sueli, para ter alguma informação, ela disse que havia falado com a Cleci na sexta, quando a filha tinha chegado de viagem, "Cleci e as meninas ficaram de vir me visitar ontem, (domingo), mas não vieram".
O desespero já tomava conta da cabeça de Regis. Angustiado e completamente sem chão, a cunhada, Elenara Calvi, foi até a residência da irmã, ao chegar lá a polícia já estava (Regis havia ligado para polícia mais cedo).
No primeiro momento, ela achou que as garotas haviam sido sequestradas, pois gostavam de andar de bicicleta na rua. Porém, do lado de fora dava para ver as bicicletas penduradas (guardadas) na garagem da casa.
Os cachorros Fumaça e Tina estavam bastante agitados, os agentes queriam matá-los, para entrarem na casa, Elenara não deixou. Então derrubaram o portão e deixaram um fugir, e outra foi sedada.
A moça presenciou uma cena traumatizante, encontrou a própria irmã e as três sobrinhas, mortas. As quatro mulheres foram brutalmente estupradas e assassinadas dentro de casa, na sexta-feira, 24 de novembro de 2023.
Uma cena indescritível aos olhos humanos. Elenara ligou para o então viúvo aos prantos: " Regis, Regis, você não sabe o que aconteceu... a Cleci as meninas foram assassinadas". Ao saber da notícia o mundo de Regis desabou violentamente.
A Chacina e a Justiça dos Homens
Na sexta-feira, 24, um pedreiro que trabalhava e morava em uma obra, ao lado da casa da família Calvi Cardoso, entrou na casa de Regis, por andaime feito na construção que ligava as duas casas - do lado de fora dava para pular dentro do muro da casa da família. O criminoso adentrou o imóvel pela janela do banheiro, para não ser pego pelos cachorros.
Como o chefe da casa vivia viajando a trabalho, o maníaco, estudou o ambiente onde ia atacar. Observou Cleci, 46 anos e as filhas, Miliane, 19, Manuela, 12, e Melissa, 10 anos. Segundo informações da polícia.
Todo predador sexual tem um modus operandi. Ele entrou na residência tarde da noite, estuprou três das quatros mulheres da casa, e as matou com golpes de faca.
A perícia revelou que as vítimas entraram em luta corporal com o agressor antes de serem mortas. Elas lutaram pela vida até morrerem. A filha caçula Melissa, segundo a polícia, não foi violentada sexualmente. Morreu asfixiada. O criminoso, denominado Gilberto pedreiro, tem várias passagens pela polícia, inclusive, condenação por estupro e latrocínio. Ele garante que agiu sozinho na chacina.
A pergunta que não quer calar: por que um ser desses estava em liberdade com vários mandados de prisão em aberto? A justiça dos homens já foi feita, no dia 07 de agosto de 2025, quase dois anos após o crime, aconteceu o julgamento do serial killer. No júri popular, o veredito foi culpado por todos os crimes cometidos, pegou mais de 200 anos de cadeia.
A Justiça Divina ainda vai ser executada! O Autor da vida vai tirar um grande bem desse "mal".
Nenhuma dor ou tragédia vai apagar o legado de Cleci, Miliane, Manuela e Melissa. Uma mãe exemplar, temente a Deus. As garotas eram cantoras na igreja evangélica, queriam casar e ser mães. Eram meninas prendadas. São luzes que nunca deixarão de brilhar.
Desde novembro de 2023, a vida de Regis mudou totalmente. O que o mantém de pé é a fé em Deus. A família que ele levou anos pra construir, se acabou em minutos. Porém, isso não o fez perder o sentido existencial. Deus dá a graça de ir além para seguir vivendo. Chorando e prosseguindo.
A Superação e os Dias Atuais
Deus é Grande. Poderoso. Vivo. É isso que o sustenta. Quando a saudade avassaladora das quatro mulheres de sua vida vem com tudo, ele segura em Deus para prosseguir. Após o trágico episódio, Regis continua morando em Sorriso, Mato Grosso, mas mudou de casa. Saiu daquela onde tudo aconteceu. Atualmente, ele mora perto de Sueli, mãe de Cleci. Fumaça e Tina estão vivos e são carinhosamente cuidados pelo dono.
O vence-dor mantém roupas e brinquedos das mulheres de sua vida expostos por toda a casa onde mora. Isso o ajuda a controlar a lembrança. Um super pai, amoro e presente na vida das lindas princesas que, pela segunda vez passam o Dia dos Pais longe de seu grande herói.
O guerreiro Regis, não descarta a possibilidade de recomeçar no amor e construir outra família. Acredita que Deus colocará a pessoa certa no caminho "não é bom que o homem viva só".
É um mistério Regivaldo Cardoso manter-se de pé depois de tudo que aconteceu. Jesus Cristo o inspira. Com isso, Regis inspira pessoas com a própria dor. Ele não alimenta magoa ou vingança pelos assassinatos. Se mantém centrado nos objetivos que deseja alcançar. E deixa este recado ao Mundo: "Busque o Senhor enquanto se pode encontrá-Lo. Ele está de braços aberto para acolher, curar e amar".
4 comentários
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Tu é Homem forte e corajoso
Deus te abençoe e te honre muito!🙏🏻🙌🏻
Nossa, Regis! Que história é essa? Chocada!
Regis, como você é forte! Fiquei abalado com sua história!
Misericórdia, que história forte é essa? Parabéns pela força, Regis! Você é um guerreiro!